Seis Canções
I
Quando essa Lua toda for-se embora
Deixando apenas as estrelas mansas
Irei pousar os pés nesse remanso
E me largar a respirar sem ver a hora
E lembrarei daqueles tempos já passados
Sob os teus olhos que brilhavam luzes
Quando meu peito carregava cruzes
Mas suspirava ao te saber ao lado
Quando teus olhos se cerravam risos
Em que meu peito o palpitar perdia
Descompassado, a me pulsar os dias
Pra ouvir os anjos a tocar seus guizos
Quando eu pudesse ouvir enfim tua voz.
E os dias doces do meu chão perdido
Vão se perder em meus surdos ouvidos
Vão se esvair no vento tão veloz
Então à Lua, que no céu se some
Hei de soprar a mais frágil tristeza
Da minha alma, e ante tal beleza
A Lua há de voltar,
Só para ouvir teu nome
II
Estou sentado na varanda
Com meus dois pés a balançar
E passo os dias a contar, amor,
Em estupor de te esperar
As montarias se amontoam
Sob os meus pés chutando o ar
E voláteis amantes voam, sós
Lençóis de capa a flapejar
Mas há relâmpagos nos montes
E, meu futuro, aonde estás
Se o tempo lépido do ontem
Teus cabelos esconderam em jamais
Com a certeza de quem anda
Com corações a balançar
Passam por mim sereias com clangor
Passa o amor a se afogar
E os nossos dias a se desfazer
Em sonhos turvos de tenaz sabor
Amargo era o seu vulto a me dizer
Que só chorava de pavor
Mas há relâmpagos nos montes
E, minha bela, aonde vais
Sempre te espero e desde antes
De surgires e me deixares pra trás
III
Cinco mil fotos
nas minhas mãos.
Tantos sorrisos,
e olhos em vão.
De onde escuto
teu riso, hein?
Quisera eu te ver sorrindo aqui,
meu bem.
Tenho ouvido
'ma nota só.
Tenho ouvidos
sempre tão sós.
Porém duvido
de mim também.
Pode bem ser que tuas notas sejam mais
de cem.
Minha esperança
já foi falida.
Minha fiança
desprometida.
O tempo avança
num alazão.
Cinco mil fotos de sorrisos teus
nas minhas mãos.
Tempo de aço,
tempo inclemente,
forço meu passo,
passas à frente.
Como que eu posso
deixar-te ir?
Leva-me embora. Pois, querida, o tempo vive
em ti.
IV
Você me viu sem me esconder
Meu coração
Perdeu um passo a vacilar
Eu tropecei sem perceber
Nas minhas mãos
E tinha a boca a gaguejar
Vi minha mão se contorcer
E se encrespar
E vi você e olhei o chão
Mandei minha boca não roer
As minhas mãos
Mandei meu rosto levantar
Pra ver você a me encarar
Como se não
Tivesse os dedos a roer
Meu coração
V
Veio a Lua, Riegel, Marte,
e as estrelas vespertinas,
e Arcturus a iluminar-te
num clarão de creolina.
E vieram como pombos
a pousar suavemente,
e ao chegar, levavam tombos
e caiam à tua frente.
E perderam-se as estrelas
nos teus olhos de alabastro.
Que teimavam em prendê-las
sem deixar mais do que um rastro.
Assim, manchas espalhadas
em mar que ninguém navega,
lá perdidas, todas cegas,
pararam, petrificadas,
as ausências das estrelas.
E estão, desde então, paradas:
São somente luz de velas
do que foram. Quase nada.
- As suas luzes verdadeiras,
só se pode hoje senti-las
em risada que, ligeira,
atravesse as tuas pupilas. -
VI
Quantas estrelas no céu!
Quantas que eu não conhecia!
Quando eu usava chapéu,
a noite: suave dossel.
E eu, cego, nem percebia.
Tantas estrelas no céu
Em volta da noite vazia.
Minha cabeça doeu
tentando lembrar por que eu
achava que te conhecia.
Quantas estrelas no breu.
Que música sua eu ouvia?
Sentia que o brilho era seu.
O escuro, veloz, se escondeu:
E era você que sorria.
Conto de Natal
Ai Jesus. Vazou o grito seco, sem eco, naquele vazio imenso de noite sem nuvem. Nada que se movesse mais do que um tremer de cabeças e virar rápido de pescoços adejando línguas finas, nada ali nem fez sinal de que soubesse qual milagre se passava naquele oco de pedra onde outra voz, outra vez, gritava. Ai Jesus.
Arfaram pulmões, dois de um homem, outros de mulher, e abriu-se um terceiro par, de par em par, engolindo o ar gelado em golfadas de quem nunca bebeu água e viu um copo. E então estremeceu todo o vazio, imenso na noite sem nuvem, um grito vivo. E dessa vez fugiram todas as línguas sibilinas que adejavam pelas pedras, e adejaram asas de gangarros que cantaram todos juntos saídos não se sabe de que galho em direção ao firmamento.
Depois disso foi silêncio. Até que passos hesitantes de alpercatas no chão duro foram vindo lá de longe, e três figuras surgiram gingando sob o céu iluminado. Traziam chapéus de couro espremidos entre as mãos, e pararam à porta da casa de terra e olharam com olhos mansos o casal e a criança. Nasceu, um murmurou, e era retinto como a noite. Tem saúde, disse o outro, e sorriu com os dentes que não tinha. Sorriram todos com os dentes que não tinham. E então o primeiro ofereceu o seu presente, eu trouxe água pra lavar essas gargantas. É salobra, mas se bebe, e o pai recebeu a moringa. Eu trouxe um queijo pra dar leite prà comadre, declamou o segundo. É pouco, mas é meu último, de cabra que já morreu. E o pai recebeu o queijo em gratidão silenciosa. O terceiro não trouxera nada e desculpou-se. E o pai o abraçou como a um irmão. E então disse o visitante, olhando os olhos de um e depois os olhos da outra: mas uma coisa eu digo e dou pra esse menino. Coragem. Abraçaram-se outra vez.
O homem ergueu o menino devagar. A mulher chorava rindo. O menino ria fundo, ou seria isso um esgar de quem tem frio na noite sem fogo, mas que queima, a noite queima, olha o céu, Maria como queima de estrelas. E era verdade. Havia mais estrelas sob o chão naquela noite do que era de costume. Eram tantas que os seis, à sombra do abrigo improvisado, brilhavam de azul como se anjos. Ói, uma caiu, disse o homem. Faça um pedido, disse a mulher, que agora apertava entre os braços que tremiam o menino. Ou seria o menino que tremia. Ou seria a mãe que era o menino e não importa quem tremesse, porque tudo estremecera sob o grito da criança, e nem as pernas do seu pai, esse josé entre josés, tinham firmado ainda o passo apesar do seu esforço para parecer tranqüilo e muito firme. Pediu então que o filho se salvasse das garras da morte, e que a vinda do menino salvasse a ele, José, que esculpia cactos em busca d’água, e à sua esposa, Maria, que escavava a água em busca de leite, e à vaca morta, deitada à porta da caverna, e ao burro seco, que ruminava a própria língua havia meses, e às galinhas, todas mortas e enterradas sobre o chão, e ao próprio chão, que se abria como placas tectônicas de um planeta que crescesse, só crescesse, de maneira que nenhuma terra se encontrasse com outra, todas fossem se afastando, inexoravelmente.
E falou então Maria, a geradora da bênção, com sua voz seca de caatinga que soava entre os presentes como música de santos: Isso há de ser, meu Pai. Teu filho vai salvar a nossa vida, sim. Já salvou. São mais dois braços, duas pernas. A gente fica velho, a gente morre. Mas teu filho nasceu hoje. Nasceu um filho nessa terra onde não nascem nem as ervas mais daninhas. Esse é o único caminho nesses cacos de barro, e hoje é essa a única verdade. Essa vida. O teu filho, que vai aliviar o peso dessa cruz dos nossos ombros.
E sorriram entre si. E nu, descalço, aberta a boca e já vazia, o menino já dormira.
Quatro Sonetos
I.
O que eu sei que possuo, fatalmente
ligada ao meu destino atordoado,
é a consciência amarga de m'ia gente,
do meu povo que pena, amontoado
por sobre morros lúgubres, latentes
de inesperada e palpitante vida
que se alimenta de cerrar de dentes
e tira riso da própria ferida.
Pois essa consciência tão amarga
- café com cianeto e água-forte,
aponta a impotência de m'ias mãos
ao mesmo tempo que, tenaz, alarga
as artérias fechadas da m'ia sorte
pulsando o sangue de um milhão de irmãos.
II.
O céu. Um pejado navio que bóia
Com trêmulo casco de chumbo volátil
Que freme e que oscila e navega e apóia
Seu peso na luz transparente de frágil
Eu piso seus pés como fossem de sombra
Você anda à frente de mim como guia
Seus pés são suaves tapetes de alfombra
E a luz transparente e aquosa do dia
As gotas não molham meus olhos de vidro
E a chuva não seca um soluço de pedra
O gosto da chuva são gotas de cidra
O ar entre cálido, o vento entra frio
E as gotas de água são pingos de pedra
Formando uma flor (e é você!) sobre o rio.
III.
O que eu amava em ti não era a efêmera
Presença dos teus dedos sobre os meus,
Quando eu descrente compreendia Deus,
Ou teu sorriso que incendiava a atmosfera.
O que eu amava em ti não tinha nome
Nem tinha medo da distância imensa
Nem restrição à ausência ou à presença
Da matéria, que o tempo, atroz, consome.
Há coisas que eternas porque puras
- O dia da tua intrínseca doçura
Pulsava mesmo se não vias nada.
Era a tua claridade de alvorada,
Era a tua redenção, pomba com ramo,
O que eu amava em ti, e ainda amo.
IV.
No céu escuro do perdão da noite
De sal a flutuar na atmosfera
Vejo-te surgir, e minh'alma dói-te
E tu, serena, mira-me e pondera
Tu te ergues lenta, como majestosa
Anunciando-me o que eu mesmo penso
E te demoras lânguida em suspenso
Esquiva e assim sincera e assim sinuosa
E sempre existe em mim u'a brisa fria
Na boca do mar, que se anuncia
Em meus cabelos que não lembram nada
Que são teus dedos, quando te desfraldas
Em meus cabelos, onde então tatuas
Tua luz gelada, prateada, lua.
.
O que eu sei que possuo, fatalmente
ligada ao meu destino atordoado,
é a consciência amarga de m'ia gente,
do meu povo que pena, amontoado
por sobre morros lúgubres, latentes
de inesperada e palpitante vida
que se alimenta de cerrar de dentes
e tira riso da própria ferida.
Pois essa consciência tão amarga
- café com cianeto e água-forte,
aponta a impotência de m'ias mãos
ao mesmo tempo que, tenaz, alarga
as artérias fechadas da m'ia sorte
pulsando o sangue de um milhão de irmãos.
II.
O céu. Um pejado navio que bóia
Com trêmulo casco de chumbo volátil
Que freme e que oscila e navega e apóia
Seu peso na luz transparente de frágil
Eu piso seus pés como fossem de sombra
Você anda à frente de mim como guia
Seus pés são suaves tapetes de alfombra
E a luz transparente e aquosa do dia
As gotas não molham meus olhos de vidro
E a chuva não seca um soluço de pedra
O gosto da chuva são gotas de cidra
O ar entre cálido, o vento entra frio
E as gotas de água são pingos de pedra
Formando uma flor (e é você!) sobre o rio.
III.
O que eu amava em ti não era a efêmera
Presença dos teus dedos sobre os meus,
Quando eu descrente compreendia Deus,
Ou teu sorriso que incendiava a atmosfera.
O que eu amava em ti não tinha nome
Nem tinha medo da distância imensa
Nem restrição à ausência ou à presença
Da matéria, que o tempo, atroz, consome.
Há coisas que eternas porque puras
- O dia da tua intrínseca doçura
Pulsava mesmo se não vias nada.
Era a tua claridade de alvorada,
Era a tua redenção, pomba com ramo,
O que eu amava em ti, e ainda amo.
IV.
No céu escuro do perdão da noite
De sal a flutuar na atmosfera
Vejo-te surgir, e minh'alma dói-te
E tu, serena, mira-me e pondera
Tu te ergues lenta, como majestosa
Anunciando-me o que eu mesmo penso
E te demoras lânguida em suspenso
Esquiva e assim sincera e assim sinuosa
E sempre existe em mim u'a brisa fria
Na boca do mar, que se anuncia
Em meus cabelos que não lembram nada
Que são teus dedos, quando te desfraldas
Em meus cabelos, onde então tatuas
Tua luz gelada, prateada, lua.
.
Luz das íris
O céu estava tão azul. Não se pode haver um céu assim azul sem que haja queda, minha alma. E daquela vez o que caiu foram os sinos: Caíram do céu desbadalando. Mas não vieram como trovões ou como anúncios catatônicos do final dos indivíduos. Vieram como borboletas amarelas, das mais comuns e mais singelas, que passam pelas carroças nas estradas outra e vez sem nem serem percebidas a não ser que se observe contra o verde. Ou contra o azul do alto. As badaladas eram borboletas contra o céu e se choviam. E do morro aqui do lado se enroscava em fila longa toda aquela gente devotada, todos aqueles milagres resguardados em muletas e viseiras, e o morro tão formoso era enfeitado pela fila serpentina. E vieste voejando-me, alma minha, mas eu não podia fixar-te porque eras fugidia como aquele bem-te-vi que me chamava pela estrada, ora à esquerda, ora à esquerda, ora à direita, ora ao céu. Até que ele chamou meu nome perto, muito perto que estiquei a mão, vai pousar aqui, é bem certeza. Mas foste tu que me tomaste pelos dedos, ai minha estrada, tu sentada do meu lado na boléia que balança. Tua mão na minha mão.
Que são as mãos, ó meus tremores? Pois que as minhas que não passam de pedaços de madeira de tão ásperas, eu que sempre repassei dias a claro a esculpir tantas santinhas em cotocos de pau seco, e que delas garanti que as minhas mãos pudessem ver alguma água, outra comida, vez em quando um parco queijo. Minhas mãos, minhas soleiras do meu tato pressentiram tuas mãos tão delicadas, tão macias nos teus calos, tão mais belas do que todas essas santas, essas cruzes, os altares que eu passei a vida inteira a modular. E me olhaste como quem me visse ali somente agora.
Quem és tu, eu perguntei, e respondeste-me, minhalma, e sorrimos um pro outro, si pra si. Eram tantas borboletas amarelas a passar pelas carroças. Me descreve como enxergas essa toda natureza, e dizias o que achava do azul tão infinito do céu amplo dessa terra que não finda, e dos verdes que ressaltam das planícies nas montanhas e descambam pelas matas coloridas que aparecem cá ou lá. E eu te escutava imerso numa coisa tão diversa, vendo tudo novo e vivo nos detalhes que você, somente tu tinha notado. As ladainhas subiam pelo ar e espiralavam, fumaça de sacrifício, infinita procissão, das mulheres e dos homens, das crianças e dos velhos, desses desesperançados, desses secos sertanejos, gente, alma, minha, terra. E paramos no sopé daquele morro - a igrejinha que ficava vigiando lá do topo - e subiram os andores com os santos, que fui eu que tinha feito, com essas mãos agora tuas, eu falei, e te ouvi rindo. E depois te ouvi silêncio. E disseste, contrabaixo, que não desse as minhas mãos assim a esmo, minha mãos que eram de artista, que eram feitas pra a beleza e para as formas mais sagradas. E eu toquei então teu rosto, mar aberto. Há mais coisa tão sagrada? disse eu. É você a coisa mais bonita que pisou nessas paragens, toda a vida. E você sorriu suas lágrimas. Não, não sou. Veja só, mas que desgraça. Eu não tenho nem as pernas. Me calei. Pois que não. Não, não vejo. Pois não vejo que desgraça. Bem notaste: eu não tenho nem os olhos, respondi.
Esses sinos que choviam sobre as nossas sãs misérias. Como aquelas borboletas amarelas que corriam pelos matos, apostando quem chegava. Que milagre anunciavam, quais os surdos que ouviriam, quais leprosos sentiriam suas peles sob os sóis? Milagre. Que é milagre, ai redenção de minha vida? São as almas que se ascendem quando mortas? Milagre. Mil lágrimas.
Seguramos nossas palmas devagar. Guiaste minha mão até um aro, depois outro. Minhas pernas, murmuraste. Tu flutuas. Diz aonde? respondi. Sê meus pés? disseste tu. Nos viramos a deixar a fila ali, com seus tantos miseráveis a pedir pelas tristezas. Fomos indo devagar. Os meus olhos, meus tremores, alma minha. Eram como dois saveiros. Que singravam para casa, para o novo, pelo mar.
Fábula n°2
Para Letícia Verdefolha
Boa noite, disse o sonho. Boa noite, respondeu. E, já deitada, fechou os olhos para a luz verde-sombra, difusa sob a copa imensa das incontáveis árvores.
Era criança, e ganhava uma flor de aniversário. Uma tia de quem muito ela gostava. Era uma flor laranja, das pétalas delicadas, que tocava e lhe faziam carinho nos dedos. Andava com o pequeno vaso onde a flor morava para todos os lados, mas a flor, que acontece, pai? que acontece, mãe? começou a olhar cada vez mais indisfarçadamente para a terra. Ela estava uma semana só mais velha, e a flor encolhida, já velha muitos anos, no solo do vasinho. Pai, porque minha flor olha pra baixo? E dizia o pai que as flores são muito belas e são como que os pingentes dos colares da natureza, mas que colares nunca servem para sempre, e as flores voltavam à terra de onde tinham nascido. Ela vai morrer? Só o caule, a pétala e as raízes. O que não vai morrer, então, pai? Bem, você gostava muito dela, não gostava? E ela balançava a cabeça, acedendo.
Deciciu que as flores eram belas, mas que eram muito breves, e no aniversário seguinte foi eu quero de presente uma árvore. Uma árvore, sorria o pai. Sorriso, respondia, e o pai plantou-lhe uma árvore que era apenas um montinho de terra mexida. Não pôde ter ficado mais feliz com nada. E, daí em diante, a todos os presentes que lhe perguntavam que seriam, respondia que seriam árvores.
E foi acumulando árvores, e não só em aniversários, e foram tantas, e de tantos jardineiros de minuto, e eram árvores que eram agradecimentos, e eram árvores que eram cumplicidades, e eram outras que eram ternuras, e eram tantas que com os anos mais de dois terços de toda a vila onde vivia já lhe tinha dedicado ao menos uma, e voltava a plantar outra ao menos a cada novo aniversário. E as ruas foram ficando frescas, e as casas tinham frutos, e espontâneamente instituiu-se um bosque à borda das casas mais distantes, que crescia e que abrigava sons, e que abrigava cheiros, e que vivia bichos.
Era anciã, e seu marido perguntava que idéia a boa a tua, começar a plantar árvores; geralmente as pereferidas das donzelas são as flores. As flores, respondia com a voz trêmula da idade, as flores são pingentes, e olham sempre muito cedo para baixo. Até que são belas; mas com o tempo voltam sempre a se esconder sob lençóis, em tegumentos. E fazia-se silêncio, e as mãos com palmas finas dos dois noivos se apertavam sobre o colo.
Estava deitada sobre uma cama, e uma moça nova de cabelos dourados cochilava na cadeira à janela. Abria os olhos negros, e a moça ressonava leve. Dizia um deus te abençoe que quem sabe se chegou mesmo a dizer, e olhava para a gente tão bonita em pé a lhe guardar. Levantou então bem lépida da cama e foi andando com o povo que cantava, e ouvia músicas das terras de além-mar numa voz que era de anjos, só mais velhos. Caminhou por muitas ruas, cumprimentando seus filhos, e passou por tantos cedros, por pinheiros, por ingás, por tapetes cor de rosa sob os pés de pés de jambo, por damas da noite esguias acenando com perfumes, por jequitibás gigantes, e por mognos reais, e jenipapeiros, mallornes e jaqueiras, e chegou então ao bosque no final das casas todas, e o bosque estava imenso. Era uma catedral de teto verde, enfeitada com pingentes que sorriam, e a seu lado estava um que era laranja, e tinha as pétalas tão leves que faziam carinho nos seus dedos. E segurou na mão forte de seu marido, que sorria um sorriso de saudade, e deitaram sob a luz difusa e verde sobre o chão acolchoado de folhinhas amarelas. Disse, então que estou cansada, e o marido lhe falou pra que dormisse por um pouco. Balançou a cabeça, acedendo. Boa noite, disse o sonho. Boa noite, respondeu. E no jardim de sua casa, sobre um montinho de terra mexida, uma brisa apressou-se e mil flores amarelas choveram como que ouro sobre todo o céu da vila, todas vindas de um ipê amarelo imenso, com as cascas enrrugadas, as folhas ausentes todas e as flores agora ausentes, que fincou mais os pés no chão, continuou a olhar o sol, e explodiu uma folhinha, muito verde, na ponta do seu galho mais alto.
E a folhinha beijou, então, o azul.
Era criança, e ganhava uma flor de aniversário. Uma tia de quem muito ela gostava. Era uma flor laranja, das pétalas delicadas, que tocava e lhe faziam carinho nos dedos. Andava com o pequeno vaso onde a flor morava para todos os lados, mas a flor, que acontece, pai? que acontece, mãe? começou a olhar cada vez mais indisfarçadamente para a terra. Ela estava uma semana só mais velha, e a flor encolhida, já velha muitos anos, no solo do vasinho. Pai, porque minha flor olha pra baixo? E dizia o pai que as flores são muito belas e são como que os pingentes dos colares da natureza, mas que colares nunca servem para sempre, e as flores voltavam à terra de onde tinham nascido. Ela vai morrer? Só o caule, a pétala e as raízes. O que não vai morrer, então, pai? Bem, você gostava muito dela, não gostava? E ela balançava a cabeça, acedendo.
Deciciu que as flores eram belas, mas que eram muito breves, e no aniversário seguinte foi eu quero de presente uma árvore. Uma árvore, sorria o pai. Sorriso, respondia, e o pai plantou-lhe uma árvore que era apenas um montinho de terra mexida. Não pôde ter ficado mais feliz com nada. E, daí em diante, a todos os presentes que lhe perguntavam que seriam, respondia que seriam árvores.
E foi acumulando árvores, e não só em aniversários, e foram tantas, e de tantos jardineiros de minuto, e eram árvores que eram agradecimentos, e eram árvores que eram cumplicidades, e eram outras que eram ternuras, e eram tantas que com os anos mais de dois terços de toda a vila onde vivia já lhe tinha dedicado ao menos uma, e voltava a plantar outra ao menos a cada novo aniversário. E as ruas foram ficando frescas, e as casas tinham frutos, e espontâneamente instituiu-se um bosque à borda das casas mais distantes, que crescia e que abrigava sons, e que abrigava cheiros, e que vivia bichos.
Era anciã, e seu marido perguntava que idéia a boa a tua, começar a plantar árvores; geralmente as pereferidas das donzelas são as flores. As flores, respondia com a voz trêmula da idade, as flores são pingentes, e olham sempre muito cedo para baixo. Até que são belas; mas com o tempo voltam sempre a se esconder sob lençóis, em tegumentos. E fazia-se silêncio, e as mãos com palmas finas dos dois noivos se apertavam sobre o colo.
Estava deitada sobre uma cama, e uma moça nova de cabelos dourados cochilava na cadeira à janela. Abria os olhos negros, e a moça ressonava leve. Dizia um deus te abençoe que quem sabe se chegou mesmo a dizer, e olhava para a gente tão bonita em pé a lhe guardar. Levantou então bem lépida da cama e foi andando com o povo que cantava, e ouvia músicas das terras de além-mar numa voz que era de anjos, só mais velhos. Caminhou por muitas ruas, cumprimentando seus filhos, e passou por tantos cedros, por pinheiros, por ingás, por tapetes cor de rosa sob os pés de pés de jambo, por damas da noite esguias acenando com perfumes, por jequitibás gigantes, e por mognos reais, e jenipapeiros, mallornes e jaqueiras, e chegou então ao bosque no final das casas todas, e o bosque estava imenso. Era uma catedral de teto verde, enfeitada com pingentes que sorriam, e a seu lado estava um que era laranja, e tinha as pétalas tão leves que faziam carinho nos seus dedos. E segurou na mão forte de seu marido, que sorria um sorriso de saudade, e deitaram sob a luz difusa e verde sobre o chão acolchoado de folhinhas amarelas. Disse, então que estou cansada, e o marido lhe falou pra que dormisse por um pouco. Balançou a cabeça, acedendo. Boa noite, disse o sonho. Boa noite, respondeu. E no jardim de sua casa, sobre um montinho de terra mexida, uma brisa apressou-se e mil flores amarelas choveram como que ouro sobre todo o céu da vila, todas vindas de um ipê amarelo imenso, com as cascas enrrugadas, as folhas ausentes todas e as flores agora ausentes, que fincou mais os pés no chão, continuou a olhar o sol, e explodiu uma folhinha, muito verde, na ponta do seu galho mais alto.
E a folhinha beijou, então, o azul.
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