Igarapés. A canôa deslizando sobre as águas remo ao lado, remo, remo ao outro, remo, a canôa deslizando. Igarapés. Assim ia o José d'Água respirando o ar pesado de folhas, banhado de verdes, abrindo o escuro dos recessos das raízes com as pupilas as mais negras dos seus olhos. Lá voltava. Onde escondia?... - Não tem nada, lhe dissera o Chico Índio. São as sombras dessas águas, pregam vistas mesmo aos olhos, Zé, amigo. Era fulô só, das bonitas, pode ser, mas das comuns. Mais n'é, não. Consolara o Chico Índio. Mas não era, não era não. Isso sabia ele. Que seus olhos tinham visto, e os seus olhos eram fundos, viam fundo mata adentro no escuro. Os seus olhos tinham visto e seus ouvidos escutado. E em quem há de um confiar, senão nos seus olhos e ouvidos, disse em silêncio. Remo, remo ao outro. Igarapés. A canôa deslizando, como as águas fossem vidro que se deixa sem mover.
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Era a véspera da véspera. A canôa de Zé d'Água flutuava sobre os rios como flutuava agora, e os seus olhos pretos, dentro do seu rosto preto, eram uma sombra só amalgamada com a sombra que o folhêdo baixa às águas. Caçava peixes. Caçava, era bom jeito de dizer: era no arpão de pau talhado que ele trazia o peixe do fundo. Firmava os olhos no fundo do rio, vi'o peixe, era um raio, e vinha acima o pescado. Tinha olhos, José d'Água. E foi caçando com eles as sombras dos peixes grandes que moravam nos recantos que ele viu, boiando, a flor.
Igarapés. Deviam de se chamar Quietude. Que ali o silêncio deita imóvel na turva face das águas, e dependura-se em cipós das folhas todas, e se espalha com a luz, e se difunde. O silêncio mora lá, cristalizado, encantado no piar dos passarinhos infinitos. E no seio do silêncio caía do topo das árvores um lençol de luz oblíquo, descansando a claridade em cima de uma flor que vacilava sobre o rio. Os olhos de José d'Água enterneceram lá do fundo de seu rosto, relaxando sobrancelhas. Empurrou a água imóvel com o remo em direção à flor que olhava, olhava-o. E então súbito parou.
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Foi por aqui, cumpadre, perto. - Dissera o José d'Água na tarde seguinte. Agora eram duas as canoas, dois os homens. Um, negro como o sangue dos peixes do fundo. Outro, de um castanho como a água se tingida pelas folhas. Chico Índio forçava os olhos apontados ao longo do braço que Zé d'Água ia acenando. - E ela falou cuntigo, cumpá'e?, perguntava. - Falou... Bem. Falar, falado, não. Que ela fez foi cantar... eu penso que cantava com os olhos... - Ah. Bem. E como é que isso é, isso de se cantar c'os olhos, cumpá'e? O Chico Índio tinha agora um tom na voz que José d'Água percebeu mas não que soube o que fazer. - É um tanto disparate, meu amigo, eu sei que é. Máis ela não mexia a boca, parecia. Só que a música 'coou, seu Chico Índio. Ah, a música ecoava. A música enchia tudo isso aqui de envolta, e os pássaros todos ficaram quietos p'ra ouvir ela cantando. Foi a coisa mais bonita, mais bonita que eu já vi... - O Chico Índio tinha agora a cabeça meio pensa para um lado. Coçou o queixo. Disse: Máis visse de perto, de aonde o olho alcança? Digo: qual era a distância, mal ou menos, que ela estava, companheiro? - De lá debaixo da palmeirinha clara ali em diante, até aqui. Menos, mais. - Ah, máisi é muito, meu cumpá'!... Foi mirarge o que 'cê viu, deve ter sido!... Não tem nada... São as sombras dessas águas; pregam vista mesmo aos olhos...
Mas não era, não era, não. As sombras...
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Passou o tempo, lavando as águas. Todo fim de todo dia José d'Água penetrava mata afora e riscava igarapés, perscrutando entre as raízes. Anos, tempo. Nada, nada. Era dôido, debatiam as pessoas quando viam a canôa que passava de saída em sua busca. Chico Índio repetia, sempre que era perguntado: Ele amoleceu da cabeça, o Zé das-Águas. Acho que apaixonou. Ou que foram os mosquitos, Deus quem vê... procura sempre, tudo dia, cèrtinhôzinho, a sereia dele lá. Eu já fui cum ele atrás, p'ra ver, no dia seguinte à mirarge, a primeira. Eu fui, lá. - E 'cê visse alguma coisa? perguntavam absorvidos os ouvintes. Chico Índio balançava lentamente a cabeça já grisalha. - Tinha nada. Sombras, só. As sereias não se mostram duas vêz's, sabes não?
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A flor que olhava... Olhava-o...
Empurrou a água com o remo num impulso vagaroso. Então, súbito, parou. O ar se encheu de um murmurejar suave, muito tênue. Um sussurro esfumaçando-se, indo em círculos, circercando-se à canôa. José d'Água viu o espelho que era o preto azul do rio estremercer-se em cristazinhas que dançavam. E a flor já tinha um rosto. Tinha um corpo. Tinha olhos. E que era isso agora, que alegria é essa, meu deus, por que é que eu vou cantar e me calei? Onde estão meus pés, senhor, que não sinto água nem tábua, só tambores, jesus cristo? E que tambores são esses, que levantam lá do fundo do meu peito, isso meu deus é o coração? É o coração... - E o murmúrio já não era mais sussurro, era uma voz, u'a voz de gente, que cantava, mas não era, voz de gente, não podia, são os anjos, são os outros...
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Tempo, rio, quedas d'água. A notícia que correu é que Zé d'Água já morria. Foram ver, ele no catre estreito da cabana sem espaço. Estava cinza. Deram os respeitos, fizeram fila na porta, entraram um por vez, desta tarde ele não passa, disse alguém de si pra si, mas que todo mundo ouviu. O último a entrar, quando todos tinham ido, foi Francisco. Sentou ao lado da cama, numa tábua do chão, cúmo vai, cumpadre vélho? - Vou com Deus, sorriu o outro. Chico Índio riu também.
No silêncio da tarde a meio, congelada no calor, a cabana subsistia. Dois os homens. Um, da cor da água tingida pelas folhas, homem velho mas que abraçava os joelhos. Outro, cor das nuvens de chuva, quando chovem. Mano vé'io? - disse baixo o Chico Índio. - Sim? - respondeu o Zé das-Águas. 'Cê chegou a ver de novo a sua sereia? - perguntou. - ...Não. Num vi, não. - E fez silêncio. - E vi, sim, por outro lado. Eu vi, vi sim... sentenciou. Passou um tempo antes que o Chico perguntasse. - E como é que isso é, amigo meu?
Chico Índio, que olhava p'ros joelhos, levantou os olhos míopes e olhou o companheiro. José d'Água tinha os olhos muito lúcidos, que olhavam respondendo. Chico Índio se assombrou. Conhecera a vida inteira o homem velho que ali estava, sempre negro como a sombra sob a qual ele escondia esses seus olhos que do escuro viam longe, bem mais longe do que todos os viventes que gastavam suas vidas entre a mata e os igapós. Era um homem que buscava com as mãos próprias os peixes, no fundo da água escura, como se vivesse lá, submerso à superfície. José das Águas era em si, encarnado, o fundo de todos os rios. Mas como ele olhava agora!, a cabeça horizontal sobre suas mãos em travesseiro... com que olhos respondia ele agora àquela dúvida... Não era o mesmo José. Não... E já não estava mais cinzento... O que seu rosto ora evocava, sorrindo da sua resposta a preparar-se sobre a língua, não era mais o fundo ensombreado e encoberto do chão dos igarapés, mas o céu da meia noite. Retinto. Profundo. E os olhos, duas estrelas... Chico Índio tinha água pelas faces. José d'Água respondeu: Toda vêz que eu retornava pelas ruazinhas d'água procurando aquela flor, eu ouvia ela cantando lá no fundo da cônsciença. Eu sentia o arripio no ao longo dos meus braços. Eu chegava a ver a luz descendo doce sobre as águas, e eu via a sombra luminosa, branca, dela. Nã, num vi ela outra vez. E depois, nem achava que ia ver. No final, já nem sei mais se eu vi, real, aquela moça, mergulhando e clareando o igarapé. Mas eu ia, sempre eu ia, por aqueles labirintos, sentir minha pulsação, o acordar de mim, a Iara. E uma coisa eu lhe garanto, amigo meu: não foi culpa dessas sombras. Ao contrário. O contrário...
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Igarapés. Deviam de se chamar Pessoas. Que ali embaixo daquelas copas, onde mora o silêncio dormindo sob as sombras das raízes, corre a água em corredores que se entrançam como os fios de uma rede, labirintos de raríssimas ariadnes.