I.
O que eu sei que possuo, fatalmente
ligada ao meu destino atordoado,
é a consciência amarga de m'ia gente,
do meu povo que pena, amontoado
por sobre morros lúgubres, latentes
de inesperada e palpitante vida
que se alimenta de cerrar de dentes
e tira riso da própria ferida.
Pois essa consciência tão amarga
- café com cianeto e água-forte,
aponta a impotência de m'ias mãos
ao mesmo tempo que, tenaz, alarga
as artérias fechadas da m'ia sorte
pulsando o sangue de um milhão de irmãos.
II.
O céu. Um pejado navio que bóia
Com trêmulo casco de chumbo volátil
Que freme e que oscila e navega e apóia
Seu peso na luz transparente de frágil
Eu piso seus pés como fossem de sombra
Você anda à frente de mim como guia
Seus pés são suaves tapetes de alfombra
E a luz transparente e aquosa do dia
As gotas não molham meus olhos de vidro
E a chuva não seca um soluço de pedra
O gosto da chuva são gotas de cidra
O ar entre cálido, o vento entra frio
E as gotas de água são pingos de pedra
Formando uma flor (e é você!) sobre o rio.
III.
O que eu amava em ti não era a efêmera
Presença dos teus dedos sobre os meus,
Quando eu descrente compreendia Deus,
Ou teu sorriso que incendiava a atmosfera.
O que eu amava em ti não tinha nome
Nem tinha medo da distância imensa
Nem restrição à ausência ou à presença
Da matéria, que o tempo, atroz, consome.
Há coisas que eternas porque puras
- O dia da tua intrínseca doçura
Pulsava mesmo se não vias nada.
Era a tua claridade de alvorada,
Era a tua redenção, pomba com ramo,
O que eu amava em ti, e ainda amo.
IV.
No céu escuro do perdão da noite
De sal a flutuar na atmosfera
Vejo-te surgir, e minh'alma dói-te
E tu, serena, mira-me e pondera
Tu te ergues lenta, como majestosa
Anunciando-me o que eu mesmo penso
E te demoras lânguida em suspenso
Esquiva e assim sincera e assim sinuosa
E sempre existe em mim u'a brisa fria
Na boca do mar, que se anuncia
Em meus cabelos que não lembram nada
Que são teus dedos, quando te desfraldas
Em meus cabelos, onde então tatuas
Tua luz gelada, prateada, lua.
.
Luz das íris
O céu estava tão azul. Não se pode haver um céu assim azul sem que haja queda, minha alma. E daquela vez o que caiu foram os sinos: Caíram do céu desbadalando. Mas não vieram como trovões ou como anúncios catatônicos do final dos indivíduos. Vieram como borboletas amarelas, das mais comuns e mais singelas, que passam pelas carroças nas estradas outra e vez sem nem serem percebidas a não ser que se observe contra o verde. Ou contra o azul do alto. As badaladas eram borboletas contra o céu e se choviam. E do morro aqui do lado se enroscava em fila longa toda aquela gente devotada, todos aqueles milagres resguardados em muletas e viseiras, e o morro tão formoso era enfeitado pela fila serpentina. E vieste voejando-me, alma minha, mas eu não podia fixar-te porque eras fugidia como aquele bem-te-vi que me chamava pela estrada, ora à esquerda, ora à esquerda, ora à direita, ora ao céu. Até que ele chamou meu nome perto, muito perto que estiquei a mão, vai pousar aqui, é bem certeza. Mas foste tu que me tomaste pelos dedos, ai minha estrada, tu sentada do meu lado na boléia que balança. Tua mão na minha mão.
Que são as mãos, ó meus tremores? Pois que as minhas que não passam de pedaços de madeira de tão ásperas, eu que sempre repassei dias a claro a esculpir tantas santinhas em cotocos de pau seco, e que delas garanti que as minhas mãos pudessem ver alguma água, outra comida, vez em quando um parco queijo. Minhas mãos, minhas soleiras do meu tato pressentiram tuas mãos tão delicadas, tão macias nos teus calos, tão mais belas do que todas essas santas, essas cruzes, os altares que eu passei a vida inteira a modular. E me olhaste como quem me visse ali somente agora.
Quem és tu, eu perguntei, e respondeste-me, minhalma, e sorrimos um pro outro, si pra si. Eram tantas borboletas amarelas a passar pelas carroças. Me descreve como enxergas essa toda natureza, e dizias o que achava do azul tão infinito do céu amplo dessa terra que não finda, e dos verdes que ressaltam das planícies nas montanhas e descambam pelas matas coloridas que aparecem cá ou lá. E eu te escutava imerso numa coisa tão diversa, vendo tudo novo e vivo nos detalhes que você, somente tu tinha notado. As ladainhas subiam pelo ar e espiralavam, fumaça de sacrifício, infinita procissão, das mulheres e dos homens, das crianças e dos velhos, desses desesperançados, desses secos sertanejos, gente, alma, minha, terra. E paramos no sopé daquele morro - a igrejinha que ficava vigiando lá do topo - e subiram os andores com os santos, que fui eu que tinha feito, com essas mãos agora tuas, eu falei, e te ouvi rindo. E depois te ouvi silêncio. E disseste, contrabaixo, que não desse as minhas mãos assim a esmo, minha mãos que eram de artista, que eram feitas pra a beleza e para as formas mais sagradas. E eu toquei então teu rosto, mar aberto. Há mais coisa tão sagrada? disse eu. É você a coisa mais bonita que pisou nessas paragens, toda a vida. E você sorriu suas lágrimas. Não, não sou. Veja só, mas que desgraça. Eu não tenho nem as pernas. Me calei. Pois que não. Não, não vejo. Pois não vejo que desgraça. Bem notaste: eu não tenho nem os olhos, respondi.
Esses sinos que choviam sobre as nossas sãs misérias. Como aquelas borboletas amarelas que corriam pelos matos, apostando quem chegava. Que milagre anunciavam, quais os surdos que ouviriam, quais leprosos sentiriam suas peles sob os sóis? Milagre. Que é milagre, ai redenção de minha vida? São as almas que se ascendem quando mortas? Milagre. Mil lágrimas.
Seguramos nossas palmas devagar. Guiaste minha mão até um aro, depois outro. Minhas pernas, murmuraste. Tu flutuas. Diz aonde? respondi. Sê meus pés? disseste tu. Nos viramos a deixar a fila ali, com seus tantos miseráveis a pedir pelas tristezas. Fomos indo devagar. Os meus olhos, meus tremores, alma minha. Eram como dois saveiros. Que singravam para casa, para o novo, pelo mar.
Fábula n°2
Para Letícia Verdefolha
Boa noite, disse o sonho. Boa noite, respondeu. E, já deitada, fechou os olhos para a luz verde-sombra, difusa sob a copa imensa das incontáveis árvores.
Era criança, e ganhava uma flor de aniversário. Uma tia de quem muito ela gostava. Era uma flor laranja, das pétalas delicadas, que tocava e lhe faziam carinho nos dedos. Andava com o pequeno vaso onde a flor morava para todos os lados, mas a flor, que acontece, pai? que acontece, mãe? começou a olhar cada vez mais indisfarçadamente para a terra. Ela estava uma semana só mais velha, e a flor encolhida, já velha muitos anos, no solo do vasinho. Pai, porque minha flor olha pra baixo? E dizia o pai que as flores são muito belas e são como que os pingentes dos colares da natureza, mas que colares nunca servem para sempre, e as flores voltavam à terra de onde tinham nascido. Ela vai morrer? Só o caule, a pétala e as raízes. O que não vai morrer, então, pai? Bem, você gostava muito dela, não gostava? E ela balançava a cabeça, acedendo.
Deciciu que as flores eram belas, mas que eram muito breves, e no aniversário seguinte foi eu quero de presente uma árvore. Uma árvore, sorria o pai. Sorriso, respondia, e o pai plantou-lhe uma árvore que era apenas um montinho de terra mexida. Não pôde ter ficado mais feliz com nada. E, daí em diante, a todos os presentes que lhe perguntavam que seriam, respondia que seriam árvores.
E foi acumulando árvores, e não só em aniversários, e foram tantas, e de tantos jardineiros de minuto, e eram árvores que eram agradecimentos, e eram árvores que eram cumplicidades, e eram outras que eram ternuras, e eram tantas que com os anos mais de dois terços de toda a vila onde vivia já lhe tinha dedicado ao menos uma, e voltava a plantar outra ao menos a cada novo aniversário. E as ruas foram ficando frescas, e as casas tinham frutos, e espontâneamente instituiu-se um bosque à borda das casas mais distantes, que crescia e que abrigava sons, e que abrigava cheiros, e que vivia bichos.
Era anciã, e seu marido perguntava que idéia a boa a tua, começar a plantar árvores; geralmente as pereferidas das donzelas são as flores. As flores, respondia com a voz trêmula da idade, as flores são pingentes, e olham sempre muito cedo para baixo. Até que são belas; mas com o tempo voltam sempre a se esconder sob lençóis, em tegumentos. E fazia-se silêncio, e as mãos com palmas finas dos dois noivos se apertavam sobre o colo.
Estava deitada sobre uma cama, e uma moça nova de cabelos dourados cochilava na cadeira à janela. Abria os olhos negros, e a moça ressonava leve. Dizia um deus te abençoe que quem sabe se chegou mesmo a dizer, e olhava para a gente tão bonita em pé a lhe guardar. Levantou então bem lépida da cama e foi andando com o povo que cantava, e ouvia músicas das terras de além-mar numa voz que era de anjos, só mais velhos. Caminhou por muitas ruas, cumprimentando seus filhos, e passou por tantos cedros, por pinheiros, por ingás, por tapetes cor de rosa sob os pés de pés de jambo, por damas da noite esguias acenando com perfumes, por jequitibás gigantes, e por mognos reais, e jenipapeiros, mallornes e jaqueiras, e chegou então ao bosque no final das casas todas, e o bosque estava imenso. Era uma catedral de teto verde, enfeitada com pingentes que sorriam, e a seu lado estava um que era laranja, e tinha as pétalas tão leves que faziam carinho nos seus dedos. E segurou na mão forte de seu marido, que sorria um sorriso de saudade, e deitaram sob a luz difusa e verde sobre o chão acolchoado de folhinhas amarelas. Disse, então que estou cansada, e o marido lhe falou pra que dormisse por um pouco. Balançou a cabeça, acedendo. Boa noite, disse o sonho. Boa noite, respondeu. E no jardim de sua casa, sobre um montinho de terra mexida, uma brisa apressou-se e mil flores amarelas choveram como que ouro sobre todo o céu da vila, todas vindas de um ipê amarelo imenso, com as cascas enrrugadas, as folhas ausentes todas e as flores agora ausentes, que fincou mais os pés no chão, continuou a olhar o sol, e explodiu uma folhinha, muito verde, na ponta do seu galho mais alto.
E a folhinha beijou, então, o azul.
Era criança, e ganhava uma flor de aniversário. Uma tia de quem muito ela gostava. Era uma flor laranja, das pétalas delicadas, que tocava e lhe faziam carinho nos dedos. Andava com o pequeno vaso onde a flor morava para todos os lados, mas a flor, que acontece, pai? que acontece, mãe? começou a olhar cada vez mais indisfarçadamente para a terra. Ela estava uma semana só mais velha, e a flor encolhida, já velha muitos anos, no solo do vasinho. Pai, porque minha flor olha pra baixo? E dizia o pai que as flores são muito belas e são como que os pingentes dos colares da natureza, mas que colares nunca servem para sempre, e as flores voltavam à terra de onde tinham nascido. Ela vai morrer? Só o caule, a pétala e as raízes. O que não vai morrer, então, pai? Bem, você gostava muito dela, não gostava? E ela balançava a cabeça, acedendo.
Deciciu que as flores eram belas, mas que eram muito breves, e no aniversário seguinte foi eu quero de presente uma árvore. Uma árvore, sorria o pai. Sorriso, respondia, e o pai plantou-lhe uma árvore que era apenas um montinho de terra mexida. Não pôde ter ficado mais feliz com nada. E, daí em diante, a todos os presentes que lhe perguntavam que seriam, respondia que seriam árvores.
E foi acumulando árvores, e não só em aniversários, e foram tantas, e de tantos jardineiros de minuto, e eram árvores que eram agradecimentos, e eram árvores que eram cumplicidades, e eram outras que eram ternuras, e eram tantas que com os anos mais de dois terços de toda a vila onde vivia já lhe tinha dedicado ao menos uma, e voltava a plantar outra ao menos a cada novo aniversário. E as ruas foram ficando frescas, e as casas tinham frutos, e espontâneamente instituiu-se um bosque à borda das casas mais distantes, que crescia e que abrigava sons, e que abrigava cheiros, e que vivia bichos.
Era anciã, e seu marido perguntava que idéia a boa a tua, começar a plantar árvores; geralmente as pereferidas das donzelas são as flores. As flores, respondia com a voz trêmula da idade, as flores são pingentes, e olham sempre muito cedo para baixo. Até que são belas; mas com o tempo voltam sempre a se esconder sob lençóis, em tegumentos. E fazia-se silêncio, e as mãos com palmas finas dos dois noivos se apertavam sobre o colo.
Estava deitada sobre uma cama, e uma moça nova de cabelos dourados cochilava na cadeira à janela. Abria os olhos negros, e a moça ressonava leve. Dizia um deus te abençoe que quem sabe se chegou mesmo a dizer, e olhava para a gente tão bonita em pé a lhe guardar. Levantou então bem lépida da cama e foi andando com o povo que cantava, e ouvia músicas das terras de além-mar numa voz que era de anjos, só mais velhos. Caminhou por muitas ruas, cumprimentando seus filhos, e passou por tantos cedros, por pinheiros, por ingás, por tapetes cor de rosa sob os pés de pés de jambo, por damas da noite esguias acenando com perfumes, por jequitibás gigantes, e por mognos reais, e jenipapeiros, mallornes e jaqueiras, e chegou então ao bosque no final das casas todas, e o bosque estava imenso. Era uma catedral de teto verde, enfeitada com pingentes que sorriam, e a seu lado estava um que era laranja, e tinha as pétalas tão leves que faziam carinho nos seus dedos. E segurou na mão forte de seu marido, que sorria um sorriso de saudade, e deitaram sob a luz difusa e verde sobre o chão acolchoado de folhinhas amarelas. Disse, então que estou cansada, e o marido lhe falou pra que dormisse por um pouco. Balançou a cabeça, acedendo. Boa noite, disse o sonho. Boa noite, respondeu. E no jardim de sua casa, sobre um montinho de terra mexida, uma brisa apressou-se e mil flores amarelas choveram como que ouro sobre todo o céu da vila, todas vindas de um ipê amarelo imenso, com as cascas enrrugadas, as folhas ausentes todas e as flores agora ausentes, que fincou mais os pés no chão, continuou a olhar o sol, e explodiu uma folhinha, muito verde, na ponta do seu galho mais alto.
E a folhinha beijou, então, o azul.
III
Levanta-te da cama, olha a janela...
Naquela noite, depois de várias semanas de silêncio, ouvia-se de novo o som do violino desafinado vindo do centro da pequena praça incrustada no meio do povoado.
Ó musa dos meus dias de gerânios!
O violino era de pouca qualidade, mas, como comum a todos de sua espécie, pungente como um corte numa rosa. A voz abafada cantava uma letra nova, não lembrada por ninguém. E , como de costume, todos, incondicionalmente, paravam o quer que estivessem fazendo para ouvir as serenatas noturnas. Fosse a janta ou uma briga de divórcio.
O violino, que nenhuma daquelas pessoas quase isoladas do mundo suspeitaria ser de qualidade inferior à virtuose, era, talvez por ser exótico, talvez por expressar, de uma maneira ou outra, as dores ou os júbilos que a rudeza lhes calava, uma alegria, e uma atração imperdível. Quase como um circo, ou o campeonato de pesca. Assim, eles se lembravam de todas as letras de todas as canções de Djalma Rabeca, uma por uma. E aquela era novidade.
Novidade que prosseguia, agora com um violão que lhe surgira do nada para acompanhar.
Levanta-te da cama, olha a janela,
Ó musa dos meus dias de gerânios!
Levanta, sem receio, sem cautela,
Que ao teu clarão se escondem os demônios...
Levanta-te da cama, olha p'ra fora!
Soergue o verbo Tu pelos espaços!
Desfaz a escuridão que me apavora!
Clareia com tua luz meus olhos baços!
Do mar sacramental de teus cabelos,
Escuta, ó minha musa, esses apelos
De minha alma, a tremular como uma vela...
Dá-me tua mão a mim, o óleo ungido
Que à vela há de fazer fogo garrido...
Levanta-te da cama, olha a janela!
Alguém murmurou, segurando ainda o garfo a meio caminho da boca: que beleza...
*
- Olha a manga, Rabeca! disse o menino, e parou sob a janela. Esperou alguns segundos as moedas que o outro fora buscar no interior da casa, e quando este voltou, o menino perguntou de olhos muito abertos: Por que você nunca cantou mais?
Djalma Rabeca sacudiu a cabeça muito imperceptivelmente e disse que não era assim, e que não sabia mais músicas. O menino olhou de lado, farejando segredos. Djalma Rabeca sempre cantava serenatas para a fonte da praça, pelo menos uma vez por semana, e fazia já mais de um mês que não se ouvia o som pungente do violino e a sua voz abafada cortarem as estrelas. O menino ainda tinha o rosto soslaio. Disse: se eu te arrumar uma música nova, então você me ensina o violino? Djalma Rabeca sorriu ausente e disse que claro que sim, e o menino foi embora com seu carrinho de mão cheio de mangas, anunciando as vendas, e vez ou outra parando em alguma casa, sob gritos de alô Mangólha!
Mangólha acabou de percorrer a rua principal, sentou no carrinho de mão e chupou uma manga enquanto chutava uma pedrinha no chão de um pé para o outro. Depois pulou do carrinho e dirigiu-se para o farol.
- Olha a manga, Almirante! gritou à porta. João Almirante apareceu alguns segundos depois, como quem não tem pressa de nada. - Doce? perguntou. - Docinha, respondeu, e ofereceu uma lasca tirada à faca. João Almirante aprovou, e foi buscar moedas. Quando voltou, Mangólha sorria. - Me faz uma música? perguntou. - Como!? respondeu. Mangólha sorria torto - Eu bem sei que você faz rimas. Preciso de uma. Você faz uma pra mim, sobre qualquer coisa, e eu te pago com mangas. João Almirante teve um súbito pudor imenso. Este moleque me anda espionando, gritou seu crânio. Eu igual um idiota cantando salmos, e esse moleque me ouvindo. Cuspiu um pedaço de manga. - Muito fiapo, falou, e seu rosto agora estava fechado. Olhava para o chão, mas Mangólha ainda sorria. Então, insuportavelmente, o menino mostrou os dentes, mas só com o lado esquerdo da boca, e falou devagar: Eu posso te dar notícias que iam ser muito da sua vontade. Os olhos de João Almirante se ergueram imediatamente e prenderam o menino. Que notícias? perguntou. Ah, notícias... sobre a sua sereia, por exemplo, respondeu.
- Olha a manga, Rabeca! disse o menino, e parou sob a janela. Esperou alguns segundos as moedas que o outro fora buscar no interior da casa, e quando este voltou, o menino perguntou de olhos muito abertos: Por que você nunca cantou mais?
Djalma Rabeca sacudiu a cabeça muito imperceptivelmente e disse que não era assim, e que não sabia mais músicas. O menino olhou de lado, farejando segredos. Djalma Rabeca sempre cantava serenatas para a fonte da praça, pelo menos uma vez por semana, e fazia já mais de um mês que não se ouvia o som pungente do violino e a sua voz abafada cortarem as estrelas. O menino ainda tinha o rosto soslaio. Disse: se eu te arrumar uma música nova, então você me ensina o violino? Djalma Rabeca sorriu ausente e disse que claro que sim, e o menino foi embora com seu carrinho de mão cheio de mangas, anunciando as vendas, e vez ou outra parando em alguma casa, sob gritos de alô Mangólha!
Mangólha acabou de percorrer a rua principal, sentou no carrinho de mão e chupou uma manga enquanto chutava uma pedrinha no chão de um pé para o outro. Depois pulou do carrinho e dirigiu-se para o farol.
- Olha a manga, Almirante! gritou à porta. João Almirante apareceu alguns segundos depois, como quem não tem pressa de nada. - Doce? perguntou. - Docinha, respondeu, e ofereceu uma lasca tirada à faca. João Almirante aprovou, e foi buscar moedas. Quando voltou, Mangólha sorria. - Me faz uma música? perguntou. - Como!? respondeu. Mangólha sorria torto - Eu bem sei que você faz rimas. Preciso de uma. Você faz uma pra mim, sobre qualquer coisa, e eu te pago com mangas. João Almirante teve um súbito pudor imenso. Este moleque me anda espionando, gritou seu crânio. Eu igual um idiota cantando salmos, e esse moleque me ouvindo. Cuspiu um pedaço de manga. - Muito fiapo, falou, e seu rosto agora estava fechado. Olhava para o chão, mas Mangólha ainda sorria. Então, insuportavelmente, o menino mostrou os dentes, mas só com o lado esquerdo da boca, e falou devagar: Eu posso te dar notícias que iam ser muito da sua vontade. Os olhos de João Almirante se ergueram imediatamente e prenderam o menino. Que notícias? perguntou. Ah, notícias... sobre a sua sereia, por exemplo, respondeu.
II
Qual o seu nome? perguntou João Almirante, e responderam: Vento. Não havia ninguém depois da curva. Seguira até ali, desde seu quarto no alto do farol, até a curva do rio que desaguava um pouco antes de começada a península, seguindo uma voz que cantava uma melodia simples, que qualquer um que morasse perto de um rio reconheceria como canção de lavadeiras, mas que João Almirante tomou por canto lírico.
Não havia ninguém depois da curva, e ninguém cantava mais. Agora dei pra ouvir sereias, disse baixo João Almirante, e voltou andando. No dia seguinte perguntaria ao rapaz que entregava os mantimentos se sabia algo sobre seu antecessor na guarda do farol, e, quando disse que não, perguntou sobre sereias. O rapaz olhou divertido, e disse que eram bonitas, sim, senhor, e que sempre estiveram por ali, mas agora só cantavam por dinheiro, já que alegavam que toda a vila as achava mentirosas. Por que mentirosas? perguntou Almirante. Ninguém acredita mais nelas, respondeu o menino, sorrindo de lado. Sorrindo amarelo, João Almirante fechou a porta dizendo você é mais esperta do que eu, amiga.
Mas durante a noite do mesmo dia escutaria mais uma vez alguém cantando, e julgando-se decidido a descobrir quem era, voltou até o mesmo ponto do rio, onde mais uma vez não havia ninguém depois da curva. Xingou.
Cinco dias ouvindo a cantiga, vezes mais triste, mais vezes feliz, sempre a mesma voz de avelã, e João Almirante, sob o olhar reprovador da gaivota em sua janela, apaixonou-se por alguém que apenas imaginava, repetindo assim no alto de sua cela um ritual mais antigo que o farol onde morava, e este estava lá desde quase a descoberta do mundo novo. Os poemas de seu antecessor desconhecido, que João Almirante vez ou outra passava para um caderno mais recente, batucavam em sua cabeça, e ele os repetia para o rio em longas caminhadas olhando para a água (enquanto a gaivota, recebendo seu eterno biscoito, dizia alegre e chocarreira: João Almirante, mais parvo que a estante):
A minha angústia é tanta, e entanto tão serena
Que quando na memória teu rosto fulgura,
Entrelaçada à minha crônica amargura
Se faz presente um riso de alegria plena.
É tu que me sorris e o riso transfigura
A tua face suave em suave movimento,
E és como a rosa; ao lhe beijar o vento
Gentil da aurora, antes botão se abre em candura.
Este sorriso teu a minha angústia sara,
Meu tonto coração de bater tanto, pára.
E és como veneno que em dose alta cura.
Assim por ti, querida, bela, abençoada,
Minh'alma em mares de fulgor e trevas nada,
Por sob os quais teu nome, único, perdura.
-
Assinar:
Postagens (Atom)