Soneto



A casa inteira branca está vazia
e o vento lá fora, Mais Bonita,
não se move. E, branca, me fita
Vênus tão longe. Vênus tão fria.

O vento sentou no chão da varanda,
parou o ar e calou a cidade
inteira. A aquosa claridade
do dia parece ter forma, e abranda

as formas das coisas. Abrir-se-ia
a amplidão claríssima de espaços
frente os meus olhos - Nítida e pura.

Mas eu, porém, que descortino o dia
parado à beira-luz, estou a um passo
de anoitecer dentro da noite escura.


_

História de Maria na Palhoça

-


Quando via as vagas claras a espalhar espumas brancas
Sempre olhando da janela, murmurava o mesmo canto
De que bela que seria se ela fosse feita em brumas
E deitasse sobre as ondas, e se as ondas lhe fizessem descansar

E sentia sempre ânsias quando a lua se levanta
De soltar os pés descalços, e como se fossem campos
De orvalhos e neblinas e de verdes e lazúlis
Atravessar oceanos caminhando etéreamente sobre o mar

E um dia convenceu-se, ao ouvir gaivotas mansas
Que falavam com voz rápida de incontáveis encantos
Das pacíficas planícies de geladas águas claras
De que a luta era vazia e que a paz era tão bela de se olhar

E andou a passos lentos, e sorria qual criança
Que não vê nenhum perigo onde a vida enxerga tantos
E com algas e com peixes a beijar seus pés descalços
Pôde então dormir serena sob o som do oceano a lhe embalar.


-

Frederico

É tudo tão tremendo descontrole,
companheiro
Esse fogo nos pneus
Esse fogo nos colchões
Esses pelo amor de deus
Essas férreas erupções
Esses corpos, companheiro
Esses vôos pelo céu
antes de morrer no chão
Esses gritos de calibre
Esses fogos de enxofre
Esses corpos, companheiro
essa vida nos porões

É tudo tanto, tanto triste e irremediável
Tanto fogo nos pneus
Tantas foices pelas mãos
Esse foi-se, o volta, o deus
As vazias plantações
Essas lonas, companheiro
essas hélices no céu
Os tratores pelo chão
Essa seca e dura fibra
Essa força que não quebra
Essas palmas, companheiros
esses sulcos dos sertões

Irremediável descontrole, meu amigo
Como haver revolução?
Como se apertando a água
Dentro de trêmulas mãos?
Aonde vamos, nós, senão
para a beira de um abismo?

Pois levanta os olhos lúcidos, comparsa
Pois se mesmo em céu nublado o sol incendeia a manhã!
Caso nos reste apenas esperança,
Façamos dela o fio, a corda, a trança
A segurar as irremediáveis mãos
- Mesmo que sobre a nós somente isso.
Não baixa os olhos lúcidos, Graniço
que a lucidez é o jeito de ficarmos sãos.


_

Seis Canções



I

Quando essa Lua toda for-se embora
Deixando apenas as estrelas mansas
Irei pousar os pés nesse remanso
E me largar a respirar sem ver a hora

E lembrarei daqueles tempos já passados
Sob os teus olhos que brilhavam luzes
Quando meu peito carregava cruzes
Mas suspirava ao te saber ao lado

Quando teus olhos se cerravam risos
Em que meu peito o palpitar perdia
Descompassado, a me pulsar os dias
Pra ouvir os anjos a tocar seus guizos

Quando eu pudesse ouvir enfim tua voz.
E os dias doces do meu chão perdido
Vão se perder em meus surdos ouvidos
Vão se esvair no vento tão veloz


Então à Lua, que no céu se some
Hei de soprar a mais frágil tristeza
Da minha alma, e ante tal beleza
A Lua há de voltar,
Só para ouvir teu nome



II
Estou sentado na varanda
Com meus dois pés a balançar
E passo os dias a contar, amor,
Em estupor de te esperar

As montarias se amontoam
Sob os meus pés chutando o ar
E voláteis amantes voam, sós
Lençóis de capa a flapejar

Mas há relâmpagos nos montes
E, meu futuro, aonde estás
Se o tempo lépido do ontem
Teus cabelos esconderam em jamais

Com a certeza de quem anda
Com corações a balançar
Passam por mim sereias com clangor
Passa o amor a se afogar

E os nossos dias a se desfazer
Em sonhos turvos de tenaz sabor
Amargo era o seu vulto a me dizer
Que só chorava de pavor

Mas há relâmpagos nos montes
E, minha bela, aonde vais
Sempre te espero e desde antes
De surgires e me deixares pra trás




III
Cinco mil fotos
nas minhas mãos.
Tantos sorrisos,
e olhos em vão.
De onde escuto
teu riso, hein?
Quisera eu te ver sorrindo aqui,
meu bem.

Tenho ouvido
'ma nota só.
Tenho ouvidos
sempre tão sós.
Porém duvido
de mim também.
Pode bem ser que tuas notas sejam mais
de cem.

Minha esperança
já foi falida.
Minha fiança
desprometida.
O tempo avança
num alazão.
Cinco mil fotos de sorrisos teus
nas minhas mãos.

Tempo de aço,
tempo inclemente,
forço meu passo,
passas à frente.
Como que eu posso
deixar-te ir?
Leva-me embora. Pois, querida, o tempo vive
em ti.


IV
Você me viu sem me esconder
Meu coração
Perdeu um passo a vacilar

Eu tropecei sem perceber
Nas minhas mãos
E tinha a boca a gaguejar

Vi minha mão se contorcer
E se encrespar
E vi você e olhei o chão

Mandei minha boca não roer
As minhas mãos
Mandei meu rosto levantar

Pra ver você a me encarar
Como se não
Tivesse os dedos a roer
Meu coração


V
Veio a Lua, Riegel, Marte,
e as estrelas vespertinas,
e Arcturus a iluminar-te
num clarão de creolina.

E vieram como pombos
a pousar suavemente,
e ao chegar, levavam tombos
e caiam à tua frente.

E perderam-se as estrelas
nos teus olhos de alabastro.
Que teimavam em prendê-las
sem deixar mais do que um rastro.

Assim, manchas espalhadas
em mar que ninguém navega,
lá perdidas, todas cegas,
pararam, petrificadas,

as ausências das estrelas.
E estão, desde então, paradas:
São somente luz de velas
do que foram. Quase nada.

- As suas luzes verdadeiras,
só se pode hoje senti-las
em risada que, ligeira,
atravesse as tuas pupilas.
-


VI

Quantas estrelas no céu!

Quantas que eu não conhecia!


Quando eu usava chapéu,

a noite: suave dossel.
E eu, cego, nem percebia.


Tantas estrelas no céu
Em volta da noite vazia.


Minha cabeça doeu

tentando lembrar por que eu

achava que te conhecia.


Quantas estrelas no breu.
Que música sua eu ouvia?


Sentia que o brilho era seu.

O escuro, veloz, se escondeu:

E era você que sorria.


Conto de Natal


Ai Jesus. Vazou o grito seco, sem eco, naquele vazio imenso de noite sem nuvem. Nada que se movesse mais do que um tremer de cabeças e virar rápido de pescoços adejando línguas finas, nada ali nem fez sinal de que soubesse qual milagre se passava naquele oco de pedra onde outra voz, outra vez, gritava. Ai Jesus.
Arfaram pulmões, dois de um homem, outros de mulher, e abriu-se um terceiro par, de par em par, engolindo o ar gelado em golfadas de quem nunca bebeu água e viu um copo. E então estremeceu todo o vazio, imenso na noite sem nuvem, um grito vivo. E dessa vez fugiram todas as línguas sibilinas que adejavam pelas pedras, e adejaram asas de gangarros que cantaram todos juntos saídos não se sabe de que galho em direção ao firmamento.
Depois disso foi silêncio. Até que passos hesitantes de alpercatas no chão duro foram vindo lá de longe, e três figuras surgiram gingando sob o céu iluminado. Traziam chapéus de couro espremidos entre as mãos, e pararam à porta da casa de terra e olharam com olhos mansos o casal e a criança. Nasceu, um murmurou, e era retinto como a noite. Tem saúde, disse o outro, e sorriu com os dentes que não tinha. Sorriram todos com os dentes que não tinham. E então o primeiro ofereceu o seu presente, eu trouxe água pra lavar essas gargantas. É salobra, mas se bebe, e o pai recebeu a moringa. Eu trouxe um queijo pra dar leite prà comadre, declamou o segundo. É pouco, mas é meu último, de cabra que já morreu. E o pai recebeu o queijo em gratidão silenciosa. O terceiro não trouxera nada e desculpou-se. E o pai o abraçou como a um irmão. E então disse o visitante, olhando os olhos de um e depois os olhos da outra: mas uma coisa eu digo e dou pra esse menino. Coragem. Abraçaram-se outra vez.
O homem ergueu o menino devagar. A mulher chorava rindo. O menino ria fundo, ou seria isso um esgar de quem tem frio na noite sem fogo, mas que queima, a noite queima, olha o céu, Maria como queima de estrelas. E era verdade. Havia mais estrelas sob o chão naquela noite do que era de costume. Eram tantas que os seis, à sombra do abrigo improvisado, brilhavam de azul como se anjos. Ói, uma caiu, disse o homem. Faça um pedido, disse a mulher, que agora apertava entre os braços que tremiam o menino. Ou seria o menino que tremia. Ou seria a mãe que era o menino e não importa quem tremesse, porque tudo estremecera sob o grito da criança, e nem as pernas do seu pai, esse josé entre josés, tinham firmado ainda o passo apesar do seu esforço para parecer tranqüilo e muito firme. Pediu então que o filho se salvasse das garras da morte, e que a vinda do menino salvasse a ele, José, que esculpia cactos em busca d’água, e à sua esposa, Maria, que escavava a água em busca de leite, e à vaca morta, deitada à porta da caverna, e ao burro seco, que ruminava a própria língua havia meses, e às galinhas, todas mortas e enterradas sobre o chão, e ao próprio chão, que se abria como placas tectônicas de um planeta que crescesse, só crescesse, de maneira que nenhuma terra se encontrasse com outra, todas fossem se afastando, inexoravelmente.
E falou então Maria, a geradora da bênção, com sua voz seca de caatinga que soava entre os presentes como música de santos: Isso há de ser, meu Pai. Teu filho vai salvar a nossa vida, sim. Já salvou. São mais dois braços, duas pernas. A gente fica velho, a gente morre. Mas teu filho nasceu hoje. Nasceu um filho nessa terra onde não nascem nem as ervas mais daninhas. Esse é o único caminho nesses cacos de barro, e hoje é essa a única verdade. Essa vida. O teu filho, que vai aliviar o peso dessa cruz dos nossos ombros.
E sorriram entre si. E nu, descalço, aberta a boca e já vazia, o menino já dormira.


Quatro Sonetos

I.
O que eu sei que possuo, fatalmente
ligada ao meu destino atordoado,
é a consciência amarga de m'ia gente,
do meu povo que pena, amontoado
por sobre morros lúgubres, latentes
de inesperada e palpitante vida
que se alimenta de cerrar de dentes
e tira riso da própria ferida.

Pois essa consciência tão amarga
- café com cianeto e água-forte,
aponta a impotência de m'ias mãos
ao mesmo tempo que, tenaz, alarga
as artérias fechadas da m'ia sorte
pulsando o sangue de um milhão de irmãos.

II.
O céu. Um pejado navio que bóia
Com trêmulo casco de chumbo volátil
Que freme e que oscila e navega e apóia
Seu peso na luz transparente de frágil

Eu piso seus pés como fossem de sombra
Você anda à frente de mim como guia
Seus pés são suaves tapetes de alfombra
E a luz transparente e aquosa do dia

As gotas não molham meus olhos de vidro
E a chuva não seca um soluço de pedra
O gosto da chuva são gotas de cidra

O ar entre cálido, o vento entra frio
E as gotas de água são pingos de pedra
Formando uma flor (e é você!) sobre o rio.

III.
O que eu amava em ti não era a efêmera
Presença dos teus dedos sobre os meus,
Quando eu descrente compreendia Deus,
Ou teu sorriso que incendiava a atmosfera.

O que eu amava em ti não tinha nome
Nem tinha medo da distância imensa
Nem restrição à ausência ou à presença
Da matéria, que o tempo, atroz, consome.

Há coisas que eternas porque puras
- O dia da tua intrínseca doçura
Pulsava mesmo se não vias nada.

Era a tua claridade de alvorada,
Era a tua redenção, pomba com ramo,
O que eu amava em ti, e ainda amo.

IV.
No céu escuro do perdão da noite
De sal a flutuar na atmosfera
Vejo-te surgir, e minh'alma dói-te
E tu, serena, mira-me e pondera

Tu te ergues lenta, como majestosa
Anunciando-me o que eu mesmo penso
E te demoras lânguida em suspenso
Esquiva e assim sincera e assim sinuosa

E sempre existe em mim u'a brisa fria
Na boca do mar, que se anuncia
Em meus cabelos que não lembram nada

Que são teus dedos, quando te desfraldas
Em meus cabelos, onde então tatuas
Tua luz gelada, prateada, lua.

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Luz das íris



O céu estava tão azul. Não se pode haver um céu assim azul sem que haja queda, minha alma. E daquela vez o que caiu foram os sinos: Caíram do céu desbadalando. Mas não vieram como trovões ou como anúncios catatônicos do final dos indivíduos. Vieram como borboletas amarelas, das mais comuns e mais singelas, que passam pelas carroças nas estradas outra e vez sem nem serem percebidas a não ser que se observe contra o verde. Ou contra o azul do alto. As badaladas eram borboletas contra o céu e se choviam. E do morro aqui do lado se enroscava em fila longa toda aquela gente devotada, todos aqueles milagres resguardados em muletas e viseiras, e o morro tão formoso era enfeitado pela fila serpentina. E vieste voejando-me, alma minha, mas eu não podia fixar-te porque eras fugidia como aquele bem-te-vi que me chamava pela estrada, ora à esquerda, ora à esquerda, ora à direita, ora ao céu. Até que ele chamou meu nome perto, muito perto que estiquei a mão, vai pousar aqui, é bem certeza. Mas foste tu que me tomaste pelos dedos, ai minha estrada, tu sentada do meu lado na boléia que balança. Tua mão na minha mão.
Que são as mãos, ó meus tremores? Pois que as minhas que não passam de pedaços de madeira de tão ásperas, eu que sempre repassei dias a claro a esculpir tantas santinhas em cotocos de pau seco, e que delas garanti que as minhas mãos pudessem ver alguma água, outra comida, vez em quando um parco queijo. Minhas mãos, minhas soleiras do meu tato pressentiram tuas mãos tão delicadas, tão macias nos teus calos, tão mais belas do que todas essas santas, essas cruzes, os altares que eu passei a vida inteira a modular. E me olhaste como quem me visse ali somente agora.
Quem és tu, eu perguntei, e respondeste-me, minhalma, e sorrimos um pro outro, si pra si. Eram tantas borboletas amarelas a passar pelas carroças. Me descreve como enxergas essa toda natureza, e dizias o que achava do azul tão infinito do céu amplo dessa terra que não finda, e dos verdes que ressaltam das planícies nas montanhas e descambam pelas matas coloridas que aparecem cá ou lá. E eu te escutava imerso numa coisa tão diversa, vendo tudo novo e vivo nos detalhes que você, somente tu tinha notado. As ladainhas subiam pelo ar e espiralavam, fumaça de sacrifício, infinita procissão, das mulheres e dos homens, das crianças e dos velhos, desses desesperançados, desses secos sertanejos, gente, alma, minha, terra. E paramos no sopé daquele morro - a igrejinha que ficava vigiando lá do topo - e subiram os andores com os santos, que fui eu que tinha feito, com essas mãos agora tuas, eu falei, e te ouvi rindo. E depois te ouvi silêncio. E disseste, contrabaixo, que não desse as minhas mãos assim a esmo, minha mãos que eram de artista, que eram feitas pra a beleza e para as formas mais sagradas. E eu toquei então teu rosto, mar aberto. Há mais coisa tão sagrada? disse eu. É você a coisa mais bonita que pisou nessas paragens, toda a vida. E você sorriu suas lágrimas. Não, não sou. Veja só, mas que desgraça. Eu não tenho nem as pernas. Me calei. Pois que não. Não, não vejo. Pois não vejo que desgraça. Bem notaste: eu não tenho nem os olhos, respondi.
Esses sinos que choviam sobre as nossas sãs misérias. Como aquelas borboletas amarelas que corriam pelos matos, apostando quem chegava. Que milagre anunciavam, quais os surdos que ouviriam, quais leprosos sentiriam suas peles sob os sóis? Milagre. Que é milagre, ai redenção de minha vida? São as almas que se ascendem quando mortas? Milagre. Mil lágrimas.
Seguramos nossas palmas devagar. Guiaste minha mão até um aro, depois outro. Minhas pernas, murmuraste. Tu flutuas. Diz aonde? respondi. Sê meus pés? disseste tu. Nos viramos a deixar a fila ali, com seus tantos miseráveis a pedir pelas tristezas. Fomos indo devagar. Os meus olhos, meus tremores, alma minha. Eram como dois saveiros. Que singravam para casa, para o novo, pelo mar.


Fábula n°2



Boa noite, disse o sonho. Boa noite, respondeu. E, já deitada, fechou os olhos para a luz verde-sombra, difusa sob a copa imensa das incontáveis árvores.

Era criança, e ganhava uma flor de aniversário. Uma tia de quem muito ela gostava. Era uma flor laranja, das pétalas delicadas, que tocava e lhe faziam carinho nos dedos. Andava com o pequeno vaso onde a flor morava para todos os lados, mas a flor, que acontece, pai? que acontece, mãe? começou a olhar cada vez mais indisfarçadamente para a terra. Ela estava uma semana só mais velha, e a flor encolhida, já velha muitos anos, no solo do vasinho. Pai, porque minha flor olha pra baixo? E dizia o pai que as flores são muito belas e são como que os pingentes dos colares da natureza, mas que colares nunca servem para sempre, e as flores voltavam à terra de onde tinham nascido. Ela vai morrer? Só o caule, a pétala e as raízes. O que não vai morrer, então, pai? Bem, você gostava muito dela, não gostava? E ela balançava a cabeça, acedendo.
Deciciu que as flores eram belas, mas que eram muito breves, e no aniversário seguinte foi eu quero de presente uma árvore. Uma árvore, sorria o pai. Sorriso, respondia, e o pai plantou-lhe uma árvore que era apenas um montinho de terra mexida. Não pôde ter ficado mais feliz com nada. E, daí em diante, a todos os presentes que lhe perguntavam que seriam, respondia que seriam árvores.
E foi acumulando árvores, e não só em aniversários, e foram tantas, e de tantos jardineiros de minuto, e eram árvores que eram agradecimentos, e eram árvores que eram cumplicidades, e eram outras que eram ternuras, e eram tantas que com os anos mais de dois terços de toda a vila onde vivia já lhe tinha dedicado ao menos uma, e voltava a plantar outra ao menos a cada novo aniversário. E as ruas foram ficando frescas, e as casas tinham frutos, e espontâneamente instituiu-se um bosque à borda das casas mais distantes, que crescia e que abrigava sons, e que abrigava cheiros, e que vivia bichos.
Era anciã, e seu marido perguntava que idéia a boa a tua, começar a plantar árvores; geralmente as pereferidas das donzelas são as flores. As flores, respondia com a voz trêmula da idade, as flores são pingentes, e olham sempre muito cedo para baixo. Até que são belas; mas com o tempo voltam sempre a se esconder sob lençóis, em tegumentos. E fazia-se silêncio, e as mãos com palmas finas dos dois noivos se apertavam sobre o colo.
Estava deitada sobre uma cama, e uma moça nova de cabelos dourados cochilava na cadeira à janela. Abria os olhos negros, e a moça ressonava leve. Dizia um deus te abençoe que quem sabe se chegou mesmo a dizer, e olhava para a gente tão bonita em pé a lhe guardar. Levantou então bem lépida da cama e foi andando com o povo que cantava, e ouvia músicas das terras de além-mar numa voz que era de anjos, só mais velhos. Caminhou por muitas ruas, cumprimentando seus filhos, e passou por tantos cedros, por pinheiros, por ingás, por tapetes cor de rosa sob os pés de pés de jambo, por damas da noite esguias acenando com perfumes, por jequitibás gigantes, e por mognos reais, e jenipapeiros, mallornes e jaqueiras, e chegou então ao bosque no final das casas todas, e o bosque estava imenso. Era uma catedral de teto verde, enfeitada com pingentes que sorriam, e a seu lado estava um que era laranja, e tinha as pétalas tão leves que faziam carinho nos seus dedos. E segurou na mão forte de seu marido, que sorria um sorriso de saudade, e deitaram sob a luz difusa e verde sobre o chão acolchoado de folhinhas amarelas. Disse, então que estou cansada, e o marido lhe falou pra que dormisse por um pouco. Balançou a cabeça, acedendo. Boa noite, disse o sonho. Boa noite, respondeu. E no jardim de sua casa, sobre um montinho de terra mexida, uma brisa apressou-se e mil flores amarelas choveram como que ouro sobre todo o céu da vila, todas vindas de um ipê amarelo imenso, com as cascas enrrugadas, as folhas ausentes todas e as flores agora ausentes, que fincou mais os pés no chão, continuou a olhar o sol, e explodiu uma folhinha, muito verde, na ponta do seu galho mais alto.
E a folhinha beijou, então, o azul.





III




Levanta-te da cama, olha a janela...


Naquela noite, depois de várias semanas de silêncio, ouvia-se de novo o som do violino desafinado vindo do centro da pequena praça incrustada no meio do povoado.

Ó musa dos meus dias de gerânios!

O violino era de pouca qualidade, mas, como comum a todos de sua espécie, pungente como um corte numa rosa. A voz abafada cantava uma letra nova, não lembrada por ninguém. E , como de costume, todos, incondicionalmente, paravam o quer que estivessem fazendo para ouvir as serenatas noturnas. Fosse a janta ou uma briga de divórcio.
O violino, que nenhuma daquelas pessoas quase isoladas do mundo suspeitaria ser de qualidade inferior à virtuose, era, talvez por ser exótico, talvez por expressar, de uma maneira ou outra, as dores ou os júbilos que a rudeza lhes calava, uma alegria, e uma atração imperdível. Quase como um circo, ou o campeonato de pesca. Assim, eles se lembravam de todas as letras de todas as canções de Djalma Rabeca, uma por uma. E aquela era novidade.
Novidade que prosseguia, agora com um violão que lhe surgira do nada para acompanhar.


Levanta-te da cama, olha a janela,
Ó musa dos meus dias de gerânios!
Levanta, sem receio, sem cautela,
Que ao teu clarão se escondem os demônios...

Levanta-te da cama, olha p'ra fora!
Soergue o verbo Tu pelos espaços!
Desfaz a escuridão que me apavora!
Clareia com tua luz meus olhos baços!

Do mar sacramental de teus cabelos,
Escuta, ó minha musa, esses apelos
De minha alma, a tremular como uma vela...

Dá-me tua mão a mim, o óleo ungido
Que à vela há de fazer fogo garrido...
Levanta-te da cama, olha a janela!


Alguém murmurou, segurando ainda o garfo a meio caminho da boca: que beleza...


*

- Olha a manga, Rabeca! disse o menino, e parou sob a janela. Esperou alguns segundos as moedas que o outro fora buscar no interior da casa, e quando este voltou, o menino perguntou de olhos muito abertos: Por que você nunca cantou mais?
Djalma Rabeca sacudiu a cabeça muito imperceptivelmente e disse que não era assim, e que não sabia mais músicas. O menino olhou de lado, farejando segredos. Djalma Rabeca sempre cantava serenatas para a fonte da praça, pelo menos uma vez por semana, e fazia já mais de um mês que não se ouvia o som pungente do violino e a sua voz abafada cortarem as estrelas. O menino ainda tinha o rosto soslaio. Disse: se eu te arrumar uma música nova, então você me ensina o violino? Djalma Rabeca sorriu ausente e disse que claro que sim, e o menino foi embora com seu carrinho de mão cheio de mangas, anunciando as vendas, e vez ou outra parando em alguma casa, sob gritos de alô Mangólha!
Mangólha acabou de percorrer a rua principal, sentou no carrinho de mão e chupou uma manga enquanto chutava uma pedrinha no chão de um pé para o outro. Depois pulou do carrinho e dirigiu-se para o farol.
- Olha a manga, Almirante! gritou à porta. João Almirante apareceu alguns segundos depois, como quem não tem pressa de nada. - Doce? perguntou. - Docinha, respondeu, e ofereceu uma lasca tirada à faca. João Almirante aprovou, e foi buscar moedas. Quando voltou, Mangólha sorria. - Me faz uma música? perguntou. - Como!? respondeu. Mangólha sorria torto - Eu bem sei que você faz rimas. Preciso de uma. Você faz uma pra mim, sobre qualquer coisa, e eu te pago com mangas. João Almirante teve um súbito pudor imenso. Este moleque me anda espionando, gritou seu crânio. Eu igual um idiota cantando salmos, e esse moleque me ouvindo. Cuspiu um pedaço de manga. - Muito fiapo, falou, e seu rosto agora estava fechado. Olhava para o chão, mas Mangólha ainda sorria. Então, insuportavelmente, o menino mostrou os dentes, mas só com o lado esquerdo da boca, e falou devagar: Eu posso te dar notícias que iam ser muito da sua vontade. Os olhos de João Almirante se ergueram imediatamente e prenderam o menino. Que notícias? perguntou. Ah, notícias... sobre a sua sereia, por exemplo, respondeu.



II




Qual o seu nome? perguntou João Almirante, e responderam: Vento. Não havia ninguém depois da curva. Seguira até ali, desde seu quarto no alto do farol, até a curva do rio que desaguava um pouco antes de começada a península, seguindo uma voz que cantava uma melodia simples, que qualquer um que morasse perto de um rio reconheceria como canção de lavadeiras, mas que João Almirante tomou por canto lírico.
Não havia ninguém depois da curva, e ninguém cantava mais. Agora dei pra ouvir sereias, disse baixo João Almirante, e voltou andando. No dia seguinte perguntaria ao rapaz que entregava os mantimentos se sabia algo sobre seu antecessor na guarda do farol, e, quando disse que não, perguntou sobre sereias. O rapaz olhou divertido, e disse que eram bonitas, sim, senhor, e que sempre estiveram por ali, mas agora só cantavam por dinheiro, já que alegavam que toda a vila as achava mentirosas. Por que mentirosas? perguntou Almirante. Ninguém acredita mais nelas, respondeu o menino, sorrindo de lado. Sorrindo amarelo, João Almirante fechou a porta dizendo você é mais esperta do que eu, amiga.
Mas durante a noite do mesmo dia escutaria mais uma vez alguém cantando, e julgando-se decidido a descobrir quem era, voltou até o mesmo ponto do rio, onde mais uma vez não havia ninguém depois da curva. Xingou.
Cinco dias ouvindo a cantiga, vezes mais triste, mais vezes feliz, sempre a mesma voz de avelã, e João Almirante, sob o olhar reprovador da gaivota em sua janela, apaixonou-se por alguém que apenas imaginava, repetindo assim no alto de sua cela um ritual mais antigo que o farol onde morava, e este estava lá desde quase a descoberta do mundo novo. Os poemas de seu antecessor desconhecido, que João Almirante vez ou outra passava para um caderno mais recente, batucavam em sua cabeça, e ele os repetia para o rio em longas caminhadas olhando para a água (enquanto a gaivota, recebendo seu eterno biscoito, dizia alegre e chocarreira: João Almirante, mais parvo que a estante):


A minha angústia é tanta, e entanto tão serena
Que quando na memória teu rosto fulgura,
Entrelaçada à minha crônica amargura
Se faz presente um riso de alegria plena.

É tu que me sorris e o riso transfigura
A tua face suave em suave movimento,
E és como a rosa; ao lhe beijar o vento
Gentil da aurora, antes botão se abre em candura.

Este sorriso teu a minha angústia sara,
Meu tonto coração de bater tanto, pára.
E és como veneno que em dose alta cura.

Assim por ti, querida, bela, abençoada,
Minh'alma em mares de fulgor e trevas nada,
Por sob os quais teu nome, único, perdura.



-

I




João Almirante acordou súbito para ver que não eram monstros marinhos que lhe devoravam as carnes, mas apenas a gaivota que lhe espiava à janela pedindo alimento já mais uma vez depois de ontem. Impressionante aquela gaivota, que não lhe tinha medo e olhava, de fato, curiosa, todos os dias, manhãs, tardes e noites, e que se ia sem despedida ao receber ainda no ar o biscoito de água e sal que João Almirante já lhe jogava agora, para depois ir debruçar-se ao parapeito. O mar azul lá embaixo, e a parede branca do farol se descascava. A gaivota já se fora longe. Esfregando os olhos e bebendo com pulmões a maresia, João Almirante não imaginava que à noite do terceiro dia de sua estada ia encontrar em um baú velho no quarto de despensa, sob as latas de sardinhas, um caderno velho rabiscado com tinta manchada em páginas amarelas, desmanchando de umidade, que ocupariam finalmente seu ócio modorrento de uma península onde só iam caranguejos. Estará então João Almirante, à luz da lamparina que lhe cabe no seu quarto quase medieval, copiando para um caderno novo, embasbacado, a primeira das páginas moribundas:


I.

Do topo ventoso de um farol antigo
Assisto teu rosto no fundo do mar.
Com olhos molhados devolves o olhar,

Tornando em areia meu sólido abrigo.

Avisto meu rosto no fundo do mar
Mas sem o teu rosto sob o mar comigo.

E exausto percebo, do alto postigo,

Que nunca estivera teu rosto a me olhar
,

Teu rosto que sempre, da branca barcaça

Da minha esperança, que pela água passa,

Suspenso em milênios estive a mirar...


Ah, falsa esperança, não passas de um brilho!

Meneio de luz que se parte em vidrilho

Voltando com gosto profundo do mar!




Quando parou de escrever, as mãos de João Almirante tremiam. Não pela qualidade duvidosa do soneto, que ele, entretanto, não seria capaz avaliar tendo como tinha apenas, por educação, algo de essencial que aprendera havia anos na escola e coisas a mais que, por conta própria, descobrira em livros e conversações sem nunca se interessar demasiado pelas artes literárias. Mas a surpresa de encontrar, sob latas de sardinha, um caderno escrito por algum desconhecido dava a sensação de ter encontrado uma companhia inesperada no exílio, crusoé ao ver um sexta-feira. Ergueu a cabeça, e a gaivota lhe observava da janela.
E este animal não dorme nunca? perguntou-se João Almirante.



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Ligação de Tempo




Esse menino é um fresco, resmungou o avô. O menino não ouviu. Tinha começado um discurso.
- O escravo, durante seu dia fatigante de trabalho, era obrigado a comer os restos da comida do senhor de engenho, que lhe dava as partes mais nojentas e escabrosas do porco para a alimentação. E assim, forçados como eram a comer... orelhas! e... rabos! e... tripas! eles acabaram por inventar, em sua penúria, um prato que parecia uma verdadeira carnificina macabra, misturada com feijão, alimento barato na época, e água com sal. Este prato de horrores ficou conhecido como... Feijoada!
Agora, vocês, pessoas de boa situação aquisitiva, em pleno século XXI, comerem isso com tamanha satisfação... isso é perversão, pai! Tira isso daqui, Catarina. Tira! Você, mãe... uma professora...
- É como professora que eu vou te dizer que esse mito da - Parou para chupar um osso. - feijoada ser comida de escravo não se sustenta, Henrique. Isso aqui - Levantou uma orelha do prato com o garfo. - era coisa fina. Escravo comia era angu.
- E não me venha falar em comer rabo aqui, na minha mesa, que isso é coisa de fresco.
- Heitor! - disse a avó.
- Papai! - disse a mãe.
- Helena, controla o seu pai? - murmurou o pai.
- Tira isso daqui, Catarina!
- Catarina, deixa o seu irmão em paz. Dá cá essa travessa. Agora toma - e o pai derramou duas conchas de feijoada no prato do menino. - Come, e de boca fechada.
- Como eu posso comer de boca fechada...
- E olha o respeito, Henrique!
- O que esse menino tá resmungando contra os pais na minha mesa!
- Heitor, calma!
- Esse menino é um fresco. E ainda por cima um fresco arrogan...
- Heitor! vem me ajudar a trazer o sorvete.
- Pára de rir, Catarina! Mãe, eu não quero! Mãe!
- Catarina, se você já acabou de comer, vai brincar! Só o caldinho, Henrique!
Só o caldinho... é um fresco, disse o avô, indo para a cozinha.



Derrocada (ou Fogo Branco)


Aquele velho não via
desde o tempo em que a terra
sujara-lhe as vistas.
E, cego, dormia,
sobre a cama de terra
colado à parede
de palha

O velho acordava
sem a luz do sol.
O que o acordava
era, de manhã,
o sol na parede
de palha

Às cinco da madrugada,
sentiu-se acordada
a pele do velho
que abriu bem os olhos
mais brancos que o inferno
que não viram, cegos,
a fúria possessa
da viga inflamada
de cento e dez quilos
na sua cabeça



Dançavam, dançavam, cantavam as flamas
no meio, e em volta, e no alto do chão
A água trazida tornava-se em lama
que o fogo lambia e gritava que não!
E o olho do povo alagava o terreiro
E o Pai Feiticeiro se paralisou
Gritaram ajuda, pedindo por chuva
de areia ou de água ou de gelo, que for,
e o Xamã com sede de fúria nos lábios
já tão enrugados, já tão sem clamor,
ergueu um chamado gelado de sangue
por todos os mortos de agora e depois.
E pôs-se a girar no terreiro ensopado
no molho alagado de horror pelo chão
girava, e, girando, seu corpo se pôs.
Era o sol da véspera, era Anunciação.

Ebo Lubango surgiu na fogueira
que agora arrastava seu reino até o céu
a noite o atacava, serpente faceira,
com gritos, com cinzas, com almas dos seus.
Mas Ebo Lubango era a estrela primeira
que guiava o povo por tempo e areia.
Sozinho ganhava do Fogo-Leão.
Os olhos brilhavam duas luas cheias,
quando dentre as matas ouviu-se um trovão.
E um riso estridente do fundo do escuro.
Vieram
os tiros
e as redes
e o ódio
mais puro
que aquela gente
nunca conheceu.

E encurralados, e já semi-mortos
e tão assustados dos outros já mortos
o sangue gelado por riso demente
e coagulado nos joelhos tortos,
caíram, prostados,
toda aquela gente.

Mas quando jogaram as redes,
e quando os cativos foram perceber,
foi Ebo Lubango a gritar Liberdade
foi Ebo Lubango o primeiro a morrer

Um tiro no olho lhe fez fez a coragem
ser petrificada logo a florescer
e os outros cansados caíram na lama
e se ajoelharam, sem nem mais morrer



Chorava no meio dos cacos de palha
uma moça negra na luz da manhã
Diria que a ira dos deuses não falha,
mas não vira o fogo poupar o xamã.



Na ondas serenas na beira da praia
lá ia um navio sereno a boiar
e dentro do bojo sombrio levava
a coisa mais triste que a água banhava
em todos os cantos ocultos do mar.







Fabulinha

........................................................para Darshany.



......José Carpo Ribatejo nadava em um poço azul embaixo ao sol de meio dia e o calor desconcertante que lhe esquentava o couro cabeludo e lhe dava a vontade de arrancar com força os tufos ruivos, e enquanto regalava-se com o gelo azul da água, viu brilhando lá no fundo, pouco embaixo de uma rocha, sob a fina luz coada pelo céu e pela água, um rebrilho de estrela. José Carpo Ribatejo pestanejou dois segundos, enfiou-se água abaixo, sem piscar nenhuma vez enquanto olhava concentrado o que quer que fosse aquilo. E é de tanta esquivadura o chão arenoso dos lagos, que o brilho estava era longe, bem mais longe que o previsto, e enquanto vencia algas, não pôde o português ver as três índias que passavam mais ao largo na floresta, e uma índia que pisava, assustada, em suas roupas, e a segunda que tocava, temerosa, suas botas, e a terceira que erguia, encantada, seu casaco. As três índias muito riam, e pegaram toda a veste, sem nem ver, que não podiam, o nadador concentrado em chegar à sua estrela.
......Abybyra pôs as botas, mas pôs uma em cada mão, Abyara pôs a blusa, mas pôs amarrada à coxa, e Aguãia pôs o robe, mas o pôs sobre a cabeça. Riram muito, todas três. Mas a bota, essa fedia, e Abybyra as jogou longe; quanto à blusa, tinha inhaca, e Abyara a deu ao chão. Só o casaco, sempre usado sobre a blusa, e muitas vezes nem isso, pois passara muito tempo relegado a uma cadeira, não cheirava a ranço azedo. Era, de fato, cheiroso, pois José do Ribatejo, em seus tempos de além-mar, prezava por um perfume, e às vezes passava fome pra cheirar pouco melhor, e o casaco, companheiro, ainda guardava nas tramas um rescender de lavanda, fraco, porém distinguível, e que Aguãia não notou.
......Viram que cabiam braços pelas mangas da indumenta, e a dona por direito, que o pegou primeiro ao mato, deu-se a experimentar. Ficou séria três segundos, as outras já bem sem fôlego, e então disse que pinica, diacho de coisa quente, que come a carne da gente, parece urtiga da braba, coisa horrível, sás irmãs! E era pena, porque o pano era liso como seda e de um tom azul celeste que imitava o espelho de ar. Abybyra, vendo aquilo, os olhos brilhando o pano, correu três metros e meio e voltou com duas botas, já falando, enquanto vinha, ói irmã, como é bonito, vê só como é resistente, se pendura isso num cinto não vai ter homi que aguente, ói irmã, troca co'a gente! Mas por que que jogou fora? perguntou desconfiada, Joguei fora coisa nada, tava só guardando ali! E Aguãia, que era anósmica, esqueceu-se da suspeita pra pensar em Agulá quando visse o cinto novo, e trocou com a irmã.
......Abybyra com sorriso pôs um braço, pôs o outro, esperou cinco segundos, até desistir chorando, ai pinica! Ai, pinica! Mas tem chêro tão gostoso! Ai pru que que morde tanto um bichinho tão fromoso! E então, fula de ódio do casaco e da má sorte, perguntou, bem sibilina, para a irmã: quer trocar não? Abyara ergueu os olhos, que eram par dos muito belos, e falou, com inocência, que disso ela tinha muita, mais irmã, que eu num mereço! Num posso te dar o coisa que eu peguei no mei do mato... tem inhaca e tem piolho, depois vai te fazer mal... A num tem problema não, irmãzinha coisa minha, fica co bichinho azul, que você muito merece, e muito coisica minha, fica, fica, vai, ô vai. O que Abybyra queria, e que Aguãia desejava, era ver, era isso sim, a irmã se pinicando, igual às duas vaidosas. Mas Abyara era boa, e aceitou feliz a troca, ainda muito agradecida pela bondade da irmã, que lhe dava o presente mais bonito dentre os três. Colocou a mão por dentro do casaco disputado, e viu que era muito áspero, de fios duros e usados, e ainda tinha, lá dentro, umas bolas de uma coisa que brilhavam sob o sol. Então sorriu, bem contente e falou para as irmãs, ôi! Já sei, como quem inventava um brinquedo. Puxou as mangas pra fora pelo lado de dentro, e assim virou o casaco, do outro lado, pelo avesso. Era muito mais surrado que o lado antes pra fora, e não era azul, mas verde, embora muito apagado, de tecido bem barato. Com seis botões de latão. Vestiu então as duas mangas, e o forro, agora certo, lhe beijou os braços nus, e as costas destampadas. Até que quente, ele é mesmo, mas não morde mais agora, ele beija-beija, irmãs!
......Ah, que raiva, ai que desgosto, Aguãia de boca aberta e de olhos apertados, Abybyra até que rindo, mas cum canto só da boca, e arrancando vagarosa um pedacinho da blusa. Aguãia falou, surdina, ficou bom, ficou irmã? E Abyara: ficou sim, que coisa boa! E Abybyra: só qui agora tá é feio. E Abyara: Ligo nada, vai ser bom contra os mosquitos! E sorriu bem francamente.
......E é verdade que os mosquitos, e as vespinhas, e as moscas, e as formigas, e as lacraias, e tudo que pinicava, nunca mais chegaram perto da pele dessa Abyara, mesmo quando, e muitas vezes, ela ia sem casaco, que o calor daquelas terras muito é, e queima o pé. José Carpo Ribatejo ficou foi é convencido de que a culpa da estrela que encontrara sob as águas era do casaco velho, que tinha desde miúdo, e que sempre anunciara como sendo um amuleto, que o verde era de esperança, porque tinha encontrado um boizinho de madeira no dia que lhe ganhara, e a avó lhe dava cascudos, dizendo que era heresia dizer coisas tão pagãs. Mas José agora cria, e o jurava pelo dia, que a pedra que conseguira não era pedra nem nada, era o casaco da sorte que se transformara em ouro. Mal sabia o português que a esperança não se vende, não interessa a pepita, e quem troca uma esperança por um pedaço de ouro não passa de um grande tolo, e que a sua pedra era pirita.

Do Padre Que Escrevia Ditos.




25 de fevereiro de 1950, praticamente um ano após a chegada da Companhia de Jesus ao litoral da terra já então chamada Brasil, ia sentada sobre um galho relativamente alto de um pé de caju uma figura de bata e barbas, a sacudir o cordame da vestimenta. A linha de término dos matos encontrava-se pouco atrás do cajueiro, de modo que os frutos maduros que caiam ao chão desamparados eram acolhidos fofamente pela areia branca já da praia. A figura sobre o galho vinha justamente observando um dos cajus caídos, impassível sob um caranguejinho amarelo que lhe arrancava as carnes lentamente, espumando pela boca pequenina e olhando para lugares indizíveis com os olhinhos tortos. Tão repentinamente que, não fosse pela calma da voz, o caranguejo certamente se teria disparado areia adentro em algum buraco, naquela época ainda podiam os caranguejos esconderem-se em buracos, de súbito, então, o padre disse algo semelhante ao palrear dos passarinhos miraculosos que muito por lá apareciam. E, fato mais assombroso ainda, uma outra voz, vinda não se sabe de onde, o respondeu, nos mesmos modos cantados de uma araraúna. O que a figura barbada dissera, posto no linguajar corrente, era mais ou menos como quê vês tu ali embaixo, à sombra de meus pés? e a resposta vinda, direi eu por ser narrador onisciente, garanto que se estivéssemos lá eu e você, nenhum de nós teríamos visto o índio deitado confortavelmente sobre um outro galho, de uma árvore um tanto mais recuada, a cinco metros de altura, foi, posto no linguajar corrente, algo como Akaîa Ibi engole tempo, tempo cria Akaîa Ibi. E, por mais alucinadas que pareceriam, à primeira vista, as misteriosas palavras do índio, o padre, chamemo-lo padre, assentiu com os olhos sérios. Sabia muito bem, e agradecia-o à sua notável facilidade para absorver as línguas, e à veia de antropólogo que, quem diria, lhe habitava o pescoço, que aquela gente contava os anos de acordo com o aparecimento dos cajus, o que, juntado ao rápido escanear de memória que lhe dissera ser akaîa o nome para útero, e ibi o nome para terra, revelaram maciças as palavras do gentio. Voltaram ao silêncio. Alguns minutos depois, indo-se embora o caranguejo amarelo, o padre ouviu um ruído quase imperceptível de aragem, e soube que estava sozinho. Desceu do cajueiro, pegou de um graveto caído ao chão e escreveu, e foi o primeiro a fazê-lo, se o que veio depois e tornou-se famoso não tirou a idéia deste de cá, não se sabe, mas que este de cá certamente não tirou a idéia daquele que veio a ficar famoso, garantimos, escreveu sobre a areia: Sabedoria do Povo Brasileiro, número um: O único senhor desta terra é o tempo, e a única dona deste tempo é esta terra. Olhou por uns instantes o escrito, e completou, por conta própria: Que tentem ter com eles os poderes do Homem, e muito boa sorte.



1949, 1959 (ou O Terceiro Ato)


VENI VIDI VIXI


I.

O primeiro negro
Que pisou nestas areias,
Abortado de um navio,
Sob o sol dos arrecifes
mesmo assim sentia frio.


II.


O primeiro Jesuíta
a cuspir no chão da mata
sentiu na nuca um negócio
como alguém que lhe olhasse.
E o estalo da saliva,
sobre as folhas já bem úmidas
retroou nas copas altas
TÓQUETÓQUETÓQUETÓQUE!
que era um riso bom de fogo
de uma mula sem cabeça
dos pés virados pra trás.
E o português constipado
encolheu em volta os braços
e fez o sinal da cruz.


III.

O primeiro guarani
que entendeu que era Gomorra
e os Massacres do Egito
ficou tão, tão espantado
que sacudiu a cabeça.
Se esse Deus é que era o justo,
onde a maldade começa?






Mar Brasileiro (ou: Finale)



As caravelas indo embora todas juntas, e os dois índios sentados na copa do cajueiro, olhando olhando. Um vestia um gorro de lã vermelha, marrom, e que dava uma coceira ingraçada na cabeça da gente, cum umas pulguinhas comprida pulando no cabelo. O outro tinha o pé esquerdo calçando uma bota direita, e o pé direito calçando uma meia.
Sentiam-se os caciques de todas as aldeias, capazes de matar inimigo só cum grito.
O das botas falou: ólha, que isqueceram os lá pra trás. O do gorro respondeu: Isquecero nada, que os de lá vão nadando atráis pra pegá peixe. O das botas compreendeu: uhum sim.


As caravelas indo embora todas juntas, uma com o porão cheio de cajus, araçás, bananas, cocos, papagaios e tatus. Todas cheias de molambos, muito embora aliviados e surpresos e felizes com a vista daquele éden improvável.
E sobre o convés, onde dormia a resignação da rotina de bordo, depois do mar de água fresca e o descanso das bolachas, ia cantando um marinheiro magro, descambado, doentio, mas com olhos de falcão e voz de trinca-ferro:

Vaaai, Capitânia,
vamos nós atrás!
Terra e montanha
nos cansam demais!

e encarrapitado no topo de outro mastro, da caravela adjacente, outra voz, rouquíssima, respondia no mesmo ritmo:

Vaaai, Capitânia,
nos leve em rasteira!
Águas Demonhas,
missão derradeira!

Um terceiro continuava, mais adiante:

Vaaai, Comandante,
Deus dê-nos saúde!
E ajude adiante,
e até Calicute!

e mais outro:

Vaaai, caravela,
e evita o mar bruto!
Que a nós, de mazela,
já basta o escorbuto!

até que, sobre a cabeça do próprio Pedro Álvares, ouviu-se a voz sempre bem-vinda que anunciava a terra-à-vista a cantar:

Vaai, barco escuro,
sobre o mar de sal!
Longe o futuro
dirá de Cabral!

e estava certo o coitado, cujo nome nunca ouvi, mas cuja vidência é impressionante, se bem que justificada; não estaria ele ali a anunciar os horizontes da nau capitânia se não visse muito à frente. De qualquer maneira, suas duas últimas frases, justamente as visionárias, não foram compreendidas nem pelos marujos, nem pelo Capitão, que bem na hora repetiu-se, desesperado, o choro já longínquo dos dois desterrados, que a esta altura teriam dificuldades em voltar à praia, e de cujas sentenças só se distinguia agora as palavras as mais desvairadas: "comem gente".



E houvesse pessoa na praia, entre os dois índios e o mar onde se debatiam os abandonados, tenho pra mim que diria em brados o seguinte, em resposta ao canto do vidente de Cabral, e estas, sim, o futuro há de repetir:

Ó mar safira, ah quanto de tua luz
são risos desta Vera Cruz?
Por te cruzarem, quantas mães choraram,
quantos filhos cor do cobre se pasmaram
quantas seivas findaram por tombar
para que fosses posse, ó mar?

Valeu a pena? Luto vale a pena
se a alma não é pequena?
Quem quiser passar além do chão em flor
terá de passar também na dor?
Deus ao Mar o sal e as águas deu
e foi nele que espelhou os seus.


*


- ói que eles os dois vão voltando!
- ói...
- será que vão umbora não?
- hum... uhum não...





Poema Desencarnado Para Teresa Inês Pedra



O que foi feito, maria,
da minha alma antes viva,
dessa minh'alma ora fria?
Que fado foi esse, maria?

Que fato foi esse, instantâneo?
que me fez em vento assim, rápido?
Me vejo, maria, tão pálido,
efêmero e tão momentâneo

que me vem à boca a pergunta
(terei ora eu boca, maria,
eu, que não vejo meus pés?)
ou, mais que pergunta, um soluço

minh'alma, apagada, não vale
meu prórpio suspiro, maria,
e entanto eu não posso deixar
de lamentar essa morte

não minha, eu de mim
já não tenho esperança,
mas da possibilidade remota
de ti, maria, de sermos contíguos
de ser eu contigo

Imagina, maria, um momento,
que tu me amavas
e que este Tejo barrento
onde te banhastes

não era mais água tão turva,
mas as águas claras de areias
tão brancas das praias recurvas
onde meu corpo tombara

E quando me visses caído
e cinza, por certo que irias
cair sobre mim, soluçando
o mesmo soluço contido

de tão grande e tão doloroso
das mães que perderam maridos
e não há soluço mais débil
E repara, agora, um momento

como eu não mais movo mi'a mão
para lhe afagar os ouvidos
e como meus olhos não dizem
o tanto de dor que me morde

por eu não poder lhe dizer
o tanto de dor que me morde
o tanto de dor que me morde
e eu quieto

Aqui deste limbo tão cinza
onde ora me encontro
Será que eu sentia, maria,
teus lábios tremendo
por sobre meus lábios de concha?

Ou será que eu, morto, iria
sentir por teu pranto
não mais que quieta indiferença
esta indiferença tão cinza
onde ora me encontro?

Que se eu não sentisse este beijo, maria
se eu não sentisse a tua mão,
quisera eu morresse de novo, queria
perder-me no meio das matas

Mais triste que, em morte, tua falta,
é ter, sob os olhos, presença,
e ver-me despido, em descrença,
de toda a saudade, e de toda a dor

A coisa mais triste da morte
é o assassinato, maria,
o assassinato inclemente,
sem que tu nem saibas,
do nosso amor inexistente
(quem dirá te importes)